A Advent, uma das maiores gestoras de private equity do mundo, anunciou nesta terça-feira, 27 de outubro de 2026, que captou US$ 30 bilhões, cerca de R$ 163 bilhões, para dois fundos globais. O principal, o GPE XI, ficou com perto de US$ 27 bilhões, ou R$ 146 bilhões, e superou a meta de US$ 26 bilhões, ou R$ 141 bilhões. Segundo a gestora, é o maior fundo de aquisição de controle de empresas, o chamado buyout, a concluir a captação em 2026 até agora. O restante, mais de US$ 3 bilhões, cerca de R$ 16 bilhões, são compromissos já fechados para uma estratégia nova, voltada a empresas de médio porte.
Americana, fundada em 1984, a Advent tinha em 30 de junho mais de US$ 109 bilhões sob gestão, cerca de R$ 591 bilhões. Tem 18 escritórios em cinco continentes e já fez 460 investimentos em 45 países, em cinco setores: serviços financeiros, consumo, saúde, indústria e tecnologia. A gestora destaca seu histórico em dois tipos de operação: os carve-outs, em que compra unidades que grandes grupos decidem vender, e o fechamento de capital de empresas listadas.
O GPE XI é o 11º fundo da série e o maior da história da casa. O anterior, o GPE X, captou US$ 25 bilhões, cerca de R$ 136 bilhões, em 2022. Neste ano, outra gigante do setor, a KKR, encerrou em abril com US$ 23 bilhões, cerca de R$ 125 bilhões, seu fundo dedicado à América do Norte.
Quem investe e onde o dinheiro vai
Os recursos vieram de fundos de pensão públicos e privados, fundos soberanos, fundos patrimoniais e fundações, gestores institucionais, family offices e pessoas de alta renda. A Advent não citou nomes nem valores por investidor, mas diz ter atraído um número expressivo de novos cotistas, além dos antigos.
O GPE XI pode investir em qualquer geografia, setor, tipo de negócio e porte de empresa, mas mantém o foco na Europa e na América do Norte. Já o Advent Mid-Market Private Equity, lançado em março, é o primeiro veículo da gestora dedicado a aquisições menores e a investimentos de crescimento. Usa as mesmas equipes do GPE e vai aplicar de US$ 100 milhões a US$ 350 milhões, cerca de R$ 542 milhões a R$ 1,9 bilhão, em empresas avaliadas em até US$ 1,25 bilhão, cerca de R$ 6,8 bilhões, principalmente nessas duas regiões.
O que pode vir para o Brasil
O Brasil entra pela fatia de até 20% do GPE XI que pode ser aplicada em mercados emergentes, cerca de US$ 5,4 bilhões, ou R$ 29 bilhões. "Podem ser alocados recursos em América Latina e Brasil, mas não está definido quanto virá para o Brasil", disse ao Estadão Juan Pablo Zucchini, sócio da Advent em São Paulo e chefe de private equity da gestora na América Latina. "Evidentemente, o Brasil, como a maior economia da América Latina, é o candidato natural a receber esse porcentual de investimentos."
Esse dinheiro pode se somar ao LAPEF VII, fundo de US$ 2 bilhões, cerca de R$ 11 bilhões, dedicado à América Latina, que aplica entre 60% e 70% no Brasil. A combinação dos dois permite operações maiores, como a do Grupo BIG, antigo Walmart Brasil, vendido ao Carrefour em 2022. "Esse fundo aumenta o poder de fogo da Advent na região. Dá confiança e encoraja a gente a fazer negócios maiores", disse Zucchini à Exame.
A Advent abriu o escritório de São Paulo em 1997, ano de seu primeiro investimento no país, na Cardsystem. Desde então, aplicou mais de US$ 6,6 bilhões, cerca de R$ 36 bilhões, e fez 35 transações, entre compras e vendas de participações. Neste ano, comprou 8% da fabricante de cosméticos Natura, com direito a indicar dois conselheiros. Em dezembro de 2025, liderou a rodada Série C da Skyone, empresa de nuvem e inteligência artificial com receita de R$ 400 milhões em 2025. Entre as saídas recentes estão o Nubank, em fevereiro de 2023, e o Grupo CRM, dono da Kopenhagen, em março de 2024. Segundo Zucchini, as aquisições têm se concentrado em consumo e tecnologia, e a gestora olha com interesse para a saúde.
O anúncio saiu um dia depois de o Ibovespa cair 13,88%, em 26 de outubro, no primeiro pregão após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Zucchini disse ao Estadão que a reeleição não é um tema para a gestora, presente no país há quase três décadas. "Cada investimento dura até seis anos, e não temos uma visão de curto prazo e somente macroeconômica", afirmou.
Um mercado com menos fundos e mais concentração
A captação ocorre depois de uma desaceleração prolongada, que dificultou a venda de participações pelas gestoras, reduziu o dinheiro devolvido aos investidores e deixou menos capital para novos fundos, segundo a Reuters. "O mercado está desafiador", disse Zucchini ao Estadão. "Com o juro elevado nos Estados Unidos, o processo de captação é mais difícil e impacta no tamanho dos novos fundos, por isso é um grande sucesso porque está fora da curva da indústria."
A Advent usa a própria devolução de capital como argumento. Em 2026, até o anúncio, vendeu participações em 27 empresas, num total de cerca de US$ 13 bilhões, ou R$ 70 bilhões, e investiu cerca de US$ 10 bilhões, ou R$ 54 bilhões, em 38 companhias, entre operações concluídas e pendentes. "A confiança dos nossos investidores, em um dos momentos mais difíceis para captação, mostra a consistência do nosso histórico e a nossa disciplina na devolução de capital", disse James Brocklebank, sócio-gerente e copresidente do comitê executivo da Advent.
Em valor, a captação do setor cresceu 9,5% até setembro, com o dinheiro concentrado nos maiores fundos, segundo dados da Preqin compilados pelo escritório de advocacia Paul, Weiss, que excluem o venture capital. Só no terceiro trimestre, os fundos de private equity captaram no mundo US$ 229,9 bilhões, cerca de R$ 1,25 trilhão, 34,4% mais que um ano antes. Os dez maiores fundos encerrados no período responderam por 55% desse capital. Ao todo, 279 fundos concluíram a captação no trimestre, o menor número em cinco anos.
