A Superintendência-Geral do Cade aprovou, sem restrições, a compra da Avibras, fabricante de foguetes, mísseis e sistemas de defesa, pelos empresários Joesley e Wesley Batista.
O despacho foi assinado em 14 de setembro pelo superintendente-geral interino, Felipe Roquete. O órgão concluiu que a aquisição não traz prejuízo à livre concorrência no mercado nacional. O valor da operação não foi divulgado pelas partes.
Quem está comprando
A aquisição foi feita pela Globe Investimentos, veículo de investimentos pessoais dos irmãos, sem vínculo com a estrutura da J&F, a holding do grupo que controla a JBS. O alvo é a holding Nova AVB, que controla a Avibras Aeroco Indústria Aeroespacial.
A distinção importa porque parte da cobertura tratou o negócio como uma compra da J&F. Pelos documentos do processo, o comprador é o veículo pessoal dos empresários.
O Cade classificou a operação como substituição de agente econômico e registrou ausência de sobreposição horizontal ou integração vertical relevante, já que a Globe não tem atividades que se cruzem com as da Avibras.
A decisão se torna definitiva se não houver recurso de terceiros ou avocação por conselheiros do tribunal do Cade. A operação não depende de aval de outros reguladores nem de autoridades antitruste no exterior.
O que a Avibras fabrica
Fundada em 1961 e sediada em Jacareí, no Vale do Paraíba, a empresa é uma das principais da base industrial de defesa brasileira.
Seu principal ativo é o ASTROS, sistema de artilharia de foguetes sobre rodas usado pelo Exército Brasileiro e exportado para vários países. A companhia também produz um míssil de cruzeiro tático de precisão e alcance estendido, veículos especiais, propulsão, eletrônica e soluções para o setor espacial civil. O ASTROS integra programas estratégicos de Defesa Nacional.
A crise que levou à venda
A Avibras pediu recuperação judicial em março de 2022, declarando dívida de R$ 600 milhões. Ao longo do processo, com o acúmulo de passivos trabalhistas, tributários e de fornecedores, estimativas de diferentes fontes colocaram o valor entre R$ 800 milhões e R$ 1,5 bilhão.
O impacto sobre o quadro de pessoal foi severo. A empresa tinha cerca de 1,4 mil funcionários quando o processo começou e caiu para cerca de 900. Os trabalhadores entraram em greve em setembro de 2022, paralisação que se estendeu por 1.280 dias. O acordo homologado em juízo prevê cerca de R$ 230 milhões em dívidas trabalhistas a aproximadamente 1.400 empregados.
O Estado de São Paulo apresentou recurso contra a decisão que validou o plano alternativo de recuperação judicial.
Durante a reorganização, a marca se dividiu em duas empresas: a Avibras S.A., a estrutura original em recuperação, e a Avibras Aeroco, a nova operação industrial, que é o objeto da compra.
Três compradores que não fecharam
Não foi a primeira tentativa de venda. Em junho de 2024, o Ministério da Defesa informou que a empresa havia recebido proposta de um possível investidor chinês, que não avançou. Em outubro do mesmo ano, a Avibras negociava com um investidor brasileiro, que desistiu em dezembro. Em janeiro de 2025, as conversas passaram a envolver uma empresa saudita.
A produção industrial foi retomada em 4 de maio de 2026, e a companhia voltou a negociar contratos com o Exército e a Aeronáutica.
Quem são os compradores
Joesley e Wesley Batista são os maiores acionistas da JBS, maior empresa de carnes do mundo, por meio da J&F Investimentos.
Em 2017, no âmbito da Operação Lava Jato, assinaram delação premiada, e a J&F firmou acordo de leniência com multa recorde de R$ 10,3 bilhões. A sanção foi suspensa em dezembro de 2023 por decisão do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal. Neste ano, a família reorganizou a holding para incorporar os negócios de celulose, mineração e bens de consumo, com Joesley na presidência do conselho.
O que ainda não se sabe
Além do valor da operação, os novos donos não divulgaram plano de investimento, cronograma de produção, projeção de quadro de pessoal nem a situação dos contratos de exportação. A posição do Ministério da Defesa sobre a mudança de controle de uma empresa estratégica também não foi divulgada.
Fontes: ND Mais · Revista Sociedade Militar · O Vale · CNN Brasil · Defesa Aérea & Naval · InvestNews
