A Chilli Beans, maior rede de óculos escuros da América Latina, protocolou na sexta-feira, 30 de outubro de 2026, um pedido de recuperação extrajudicial para renegociar R$ 340 milhões em dívidas com instituições financeiras. Segundo a empresa, o plano foi acertado com os principais credores e prevê um aporte de até R$ 50 milhões feito por eles próprios, com Itaú, Akron Capital e Vega Asset como financiadores âncoras. O pedido ainda será analisado pela Justiça.
Fundada em 1997 por Caito Maia, que segue como presidente-executivo, a Chilli Beans vende óculos, relógios e acessórios em cerca de 900 lojas franqueadas no Brasil e está em mais de 14 países. Já chegou a ter 1.300 lojas. Segundo a Exame, o faturamento subiu de R$ 890 milhões em 2023 para R$ 1 bilhão em 2025, e a expectativa para 2026 é de R$ 940 milhões, queda de 6%. Em 31 de agosto, a empresa ainda projetava crescer 10% neste ano.
O que entra no plano
O plano trata só da dívida financeira, com novos prazos e condições de pagamento. Fornecedores, funcionários e demais parceiros comerciais ficam de fora, segundo a empresa, que não detalhou descontos, carência nem cronograma.
Os R$ 50 milhões são o que a Chilli Beans chama de "financiamento apoiado pelos credores". Segundo a Exame, a operação tem características semelhantes às de um DIP (debtor-in-possession), em que uma empresa em reestruturação recebe dinheiro novo e continua sob a gestão dos donos, modalidade geralmente associada à recuperação judicial. "O novo investimento, que será realizado pelos próprios credores, reforça a confiança do mercado no potencial da empresa e representa um impulso para a execução de nossa estratégia de crescimento", disse André Dela Togna, vice-presidente que chegou em outubro para conduzir a reestruturação.
A recuperação extrajudicial, prevista na Lei de Falências, é o caminho em que a empresa chega à Justiça com um plano já negociado e define quais dívidas ele alcança. As que ficam fora não podem ter valor nem condições alteradas. Se credores com mais da metade dos créditos de cada espécie incluída assinarem e o juiz homologar, o plano passa a obrigar também quem não assinou.
O pedido pode ser apresentado com a adesão de um terço desses créditos, e a empresa tem então 90 dias, sem prorrogação, para chegar à maioria. A partir do protocolo, as cobranças dos créditos abrangidos ficam suspensas, e o juiz ratifica a suspensão se o quórum inicial for comprovado. Depois da publicação de um edital, os credores têm 30 dias para contestar. A Chilli Beans não informou quanto da dívida já tem adesão.
Como a dívida chegou a esse ponto
Maia atribui a crise a mais de um fator, segundo a Exame. "O primeiro foi o aumento brutal dos juros, que atingiu os franqueados e também encareceu a dívida da companhia", disse. Ele cita também o salto da inadimplência de parte da rede franqueada, que saiu de um patamar próximo de 3% para cerca de 22% depois da pandemia. "Isso pressionou o caixa e criou uma bola de neve", afirmou. Hoje, segundo ele, a inadimplência está na faixa de 4%.
Documentos de uma emissão de debêntures mostram que a dívida bruta passou de R$ 216 milhões em dezembro de 2023 para R$ 290 milhões em 2024, número não auditado. Essa emissão, de R$ 100 milhões, foi feita em fevereiro de 2025 pela Mustang 25 Participações, a holding que controla a rede, a CDI mais 3,9% ao ano, com vencimento em janeiro de 2029 e o próprio Maia como avalista. Em novembro de 2025, segundo o NeoFeed, a empresa contratou o UBS BB para vender 30% do negócio.
Os problemas com os debenturistas começaram em abril de 2026, quando a Vert Securitizadora, responsável pela operação, os convocou para discutir o vencimento antecipado porque a holding não havia apresentado as demonstrações financeiras auditadas de 2025. Em seguida vieram as parcelas de julho e agosto, que somavam R$ 16,5 milhões e não foram pagas. Os debenturistas prorrogaram o prazo para 25 de setembro, sem sucesso, e em 30 de setembro a Vert declarou o vencimento antecipado, o que tornou exigível o saldo de R$ 89 milhões. Em assembleia de 2 de outubro, os credores suspenderam os efeitos da medida até 26 de outubro. O pedido à Justiça veio quatro dias depois desse prazo.
A chegada do novo vice-presidente
A possibilidade de um processo na Justiça veio a público em 31 de agosto, quando o NeoFeed informou que a empresa tinha documentos prontos para pedir recuperação judicial. A Chilli Beans negou em nota, afirmando que "não há nenhuma discussão sobre eventual processo de recuperação judicial" e que negociava com bancos para alongar prazos e reduzir juros. No mesmo dia, em reunião on-line com funcionários, Maia apresentou Dela Togna. "Recuperação judicial é uma coisa, extrajudicial é outra", disse o fundador, segundo relatos de participantes ao NeoFeed.
Dela Togna, que assumiu em 1º de outubro, presidiu entre 2022 e 2023 a calçadista gaúcha Paquetá, que havia entrado em recuperação judicial em 2019. Maia continua como presidente-executivo e, segundo a empresa, pretende dedicar mais tempo a clientes e franqueados.
A empresa diz manter os planos de expansão. Em outubro, abriu nove pontos de venda no Brasil e outros quatro na América do Sul, e prepara a comemoração de 30 anos em 2027. Mesmo assim, segundo Maia, o "ano que vem será um período de muito mais foco em qualidade e eficiência do que quantidade".
O pedido veio 12 dias depois de outra grande rede do varejo seguir o mesmo caminho: em 18 de outubro, o Grupo Ri Happy, dono das lojas de brinquedos Ri Happy e PBKids, pediu recuperação extrajudicial para renegociar R$ 827,4 milhões.
