A China suspendeu na terça-feira, 20 de outubro de 2026, as importações de carne de aves de 14 frigoríficos de Santa Catarina. A decisão foi tomada pela GACC, a administração de alfândegas chinesa, que tirou essas unidades do cadastro de fornecedores estrangeiros autorizados a vender para o país. As 14 plantas são quase um quarto das 61 que o Brasil tem habilitadas para exportar carne de aves à China.
A suspensão vale só para Santa Catarina. Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o limite foi resultado de uma negociação: "No caso da China, a restrição foi limitada a Santa Catarina após negociação conduzida pelo governo brasileiro. A atuação do Mapa permitiu evitar a suspensão das importações provenientes de todo o território nacional". Os chineses informaram ao governo brasileiro que aceitarão as cargas embarcadas até 20 de outubro, segundo a Globo Rural.
Santa Catarina concentra fábricas dos maiores exportadores de frango do país, como a Aurora Coop, cooperativa de Chapecó, a Seara, da JBS, maior empresa de carnes do mundo, e a MBRF, empresa nascida da fusão entre Marfrig e BRF, dona das marcas Sadia e Perdigão, que faturou R$ 164 bilhões em 2025.
O foco de Newcastle
A doença de Newcastle é uma infecção viral muito contagiosa, causada por um paramixovírus aviário, que ataca os sistemas respiratório, nervoso e digestivo de aves domésticas e silvestres. Segundo o Mapa, o consumo de carne de aves inspecionada continua seguro. "Eu queria destacar, porque acho que é importante a gente enfatizar, que o consumo dessa carne não traz nenhum risco às pessoas", disse o ministro da Agricultura, André de Paula, em 19 de outubro.
O Mapa confirmou o foco em 18 de outubro, numa granja comercial de perus de corte em Nova Itaberaba, no oeste de Santa Catarina. A propriedade tinha cerca de 6 mil aves, que não foram enviadas para abate. As amostras que levaram à confirmação foram coletadas entre 21 de setembro e 14 de outubro, durante a vigilância ativa do serviço veterinário de Santa Catarina. Segundo a Bloomberg, a granja fornece perus exclusivamente para a fábrica da MBRF em Chapecó, que produz para exportação. Na segunda-feira, 19 de outubro, a ação da MBRF caiu 4,11% na B3.
As aves da granja foram eliminadas em 19 e 20 de outubro. O governo declarou emergência zoossanitária por 60 dias em Nova Itaberaba e nos municípios vizinhos de Águas Frias, Coronel Freitas e Nova Erechim, o que permite controlar o trânsito de animais e cargas na região. Até sexta-feira, 23 de outubro, as equipes de vigilância tinham visitado 352 propriedades nos arredores, segundo a Globo Rural.
Quem mais restringiu
Pela última lista do Mapa, de 21 de outubro, dois países suspenderam as compras de aves de todo o Brasil: o México, que barrou aves vivas, carne, miúdos, ovos férteis e pintinhos, e a Malásia, que barrou carne, produtos cárneos e miúdos. Arábia Saudita, China e Chile restringiram só os produtos de Santa Catarina.
A lista já mudou desde então. Segundo a Globo Rural, as autoridades sauditas informaram à embaixada brasileira em Riade que a suspensão deve ficar limitada à área num raio de 10 quilômetros em volta da granja, e o Mapa passou a orientar seus fiscais nesse sentido em 22 de outubro, antes de uma confirmação oficial do governo saudita. No mesmo dia, o México confirmou que a restrição continua valendo para o país inteiro.
Pelo ofício do Mapa citado pela Globo Rural, os acordos sanitários com outros mercados também impedem a exportação de produtos da área próxima ao foco, caso de Japão, Coreia do Sul, Emirados Árabes Unidos e União Europeia. Para alguns destinos, como Paraguai, Turquia e Ucrânia, a certificação está suspensa para todo o estado.
O peso da China e de Santa Catarina
De janeiro a setembro de 2026, o Brasil exportou 4,09 milhões de toneladas de carne e miúdos de aves, que renderam US$ 7,83 bilhões, cerca de R$ 39,4 bilhões, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. A China foi o maior comprador, com 420 mil toneladas, 10,3% do volume, e US$ 1,16 bilhão, cerca de R$ 5,8 bilhões, 14,8% da receita. A Arábia Saudita levou 8% do volume, e o México, 4,5%.
Santa Catarina é o segundo maior exportador de carne de aves do país, atrás do Paraná, e respondeu por 21% do volume embarcado no período. Segundo o Itaú BBA, cerca de 63% da produção do estado vai para fora. Pelos cálculos do JPMorgan, o estado responde por 10% a 20% das exportações de frango da JBS e da MBRF.
Para o Itaú BBA, a reação dos importadores foi "mais moderada" do que em casos anteriores, e o efeito para o Brasil como um todo tende a ser limitado, porque a maior parte dos estados continua exportando. "O principal risco não está na contenção do foco atual, mas sim no tempo necessário para a reabertura dos mercados da China e da Arábia Saudita", afirmou o banco.
Os casos anteriores
O último foco de Newcastle no país foi em julho de 2024, numa granja de Anta Gorda, no Rio Grande do Sul. Na época, o Brasil suspendeu os embarques para a China e a União Europeia, segundo a Bloomberg, e os chineses mantiveram os frigoríficos gaúchos bloqueados até 20 de janeiro de 2026, segundo a Secretaria da Agricultura do Rio Grande do Sul.
Em maio de 2025, o primeiro caso de gripe aviária de alta patogenicidade numa granja comercial do país, em Montenegro (RS), levou a China a suspender as compras de frango de todo o Brasil. O país havia recuperado o status de livre da doença em 18 de junho de 2025, mas a China só retirou a suspensão em 7 de novembro de 2025.
Fontes: Mapa, nota de 20/10 · Mapa, nota de 21/10 · Mapa, confirmação do foco · Mapa, coletiva do ministro · Mapa, emergência zoossanitária · Comex Stat, MDIC · Globo Rural, Arábia Saudita · Globo Rural, vigilância · Globo Rural, Itaú BBA · Globo Rural, Malásia · Bloomberg Línea · Bloomberg, via InvestNews · Seapi RS · Governo do Paraná
