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A fintech mexicana Clara lançou no Brasil o Clara Veículos, cartão corporativo pós-pago com bandeira Mastercard voltado exclusivamente ao abastecimento de frota.

A meta declarada é alcançar 10% de um mercado que a empresa estima em R$ 400 bilhões por ano no país, em um prazo de 12 a 15 meses. Isso equivaleria a cerca de R$ 40 bilhões em despesa de combustível passando pelo cartão.

Como o produto funciona

Cada veículo da frota recebe o próprio cartão. A empresa define, por cartão, o limite de gasto, os dias e as faixas de horário em que ele pode ser usado.

Transações fora da categoria combustível são bloqueadas automaticamente. Comprovantes e notas são enviados por integração com o WhatsApp.

O modelo é pós-pago, com análise e aprovação de crédito: a conta é fechada depois do consumo, e não antes. Não há taxa de emissão nem mensalidade.

O público-alvo são empresas com frota própria, times de operação em campo, e os setores de logística e agronegócio.

Contra quem ela vai jogar

Cartão de abastecimento não é novidade no Brasil, e esse é o ponto que define a dificuldade da operação.

A líder do segmento é a Edenred Ticket Log, nascida da união entre Ticket Car e Ecofrotas. Ela opera uma rede credenciada própria com mais de 21 mil postos espalhados pelo país, e sua plataforma vai além do combustível: controla manutenção, locação, telemetria e pedágio no mesmo lugar.

A diferença entre os dois modelos é estrutural, e vale entender.

A Ticket Log credencia posto a posto. Negocia condição com cada rede, e por isso consegue oferecer desconto no litro e dado detalhado de consumo por bomba. Em troca, o motorista só pode abastecer onde há credenciamento.

A Clara usa a rede aberta da Mastercard. O cartão funciona em qualquer posto que aceite a bandeira, sem necessidade de credenciar ninguém. Ganha em capilaridade imediata e perde poder de barganha sobre o preço do combustível.

O que isso muda na promessa

A Clara promete redução de até 20% no orçamento anual de combustível. Sem rede credenciada, essa economia não pode vir de desconto no litro.

Ela vem, necessariamente, de outro lugar: controle de gasto, bloqueio de compra indevida, fim do abastecimento fora de hora e corte de desvio. É uma economia de governança, não de preço.

Para uma transportadora que já tem contrato com desconto negociado na bomba, o argumento é mais fraco. Para uma empresa de médio porte que hoje reembolsa nota fiscal de posto e não tem controle nenhum, é forte.

Nenhum caso concreto ou auditoria que sustente os 20% foi apresentado.

Quem é a Clara

Fundada em 2020 no México por Gerry Giacomán Colyer e Diego García Escobedo, a Clara opera hoje no Brasil, no México e na Colômbia, com mais de 40 mil empresas clientes na América Latina.

O portfólio vai além do cartão: inclui pagamento a fornecedores, conta empresarial, gestão de despesas e ferramentas de integração financeira. O Clara Veículos é uma extensão vertical de uma base que já existe.

A companhia atingiu valuation de US$ 1 bilhão em 2021. Convém datar o número: são cinco anos, e nenhuma avaliação mais recente foi divulgada.

Por que o combustível virou alvo

O movimento acompanha uma tese maior sobre pagamentos corporativos. Em agosto, a Mastercard estimou que até US$ 750 bilhões podem migrar para cartões no segmento B2B no Brasil.

Combustível de frota é o caso mais evidente dessa migração, porque reúne três características que o cartão resolve bem: é gasto recorrente, está pulverizado entre muitas pessoas e é historicamente difícil de comprovar.

Qualquer dono de empresa com carro na rua sabe do que se trata. O problema não é o preço do litro, é não saber quem abasteceu, quando, onde e se o tanque era mesmo o da empresa.

O tamanho da promessa

Vale dimensionar o que significa querer 10% em 15 meses.

São R$ 40 bilhões em volume anual, disputados com uma empresa que passou anos construindo rede credenciada e contratos de longo prazo com transportadoras. O número de R$ 400 bilhões, além disso, é estimativa da própria Clara, não de instituto independente.

O que não foi divulgado

A Clara não informou quantos clientes tem no Brasil, o volume que transaciona no país nem a receita da operação brasileira.

Também não detalhou de onde vem o dinheiro no Clara Veículos. Sem taxa de emissão e sem mensalidade, a receita tende a vir da tarifa de intercâmbio paga pela rede ou do spread de crédito do pós-pago, mas a empresa não abriu o modelo.