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A Cognition, empresa americana responsável pelo Devin, abriu escritório em São Paulo. A companhia é avaliada em US$ 48 bilhões e foi fundada em novembro de 2023.

A ordem dos fatos importa: a empresa não chegou ao Brasil para conquistar clientes. Ela abriu operação depois de já ter conquistado mais de dez grandes contas no país.

O que o Devin faz

A Cognition apresenta o Devin como um engenheiro de software de inteligência artificial. A diferença em relação às ferramentas de autocompletar código está no escopo e no lugar onde ele opera.

O Devin investiga bases de código existentes, executa tarefas de desenvolvimento do começo ao fim, testa as próprias alterações e devolve o resultado. E ele é acionado por Slack, Linear e GitHub, as mesmas ferramentas onde a equipe já conversa e distribui tarefa.

Na prática, o time abre um chamado e atribui a ele como atribuiria a um desenvolvedor remoto. Não é um plugin dentro do editor de código: é um integrante do fluxo de trabalho.

A empresa afirma que a tecnologia exige presença local para ser implantada em grandes corporações, porque não funciona como um software em nuvem que se contrata e se liga. Esse é o argumento declarado para montar escritório em vez de vender remotamente.

Quem já usa no Brasil

Entre os clientes nomeados estão Nubank, Itaú, Santander, B3, Natura, iFood e Mercado Livre.

O Nubank aparece como o primeiro cliente enterprise da Cognition no mundo, o que coloca o Brasil numa posição incomum: não como mercado de expansão tardia, mas como praça onde o produto foi validado cedo.

Lá fora, a lista inclui Nvidia, GE Aerospace, Citi e Mercedes-Benz.

Como a operação foi montada

Antes do escritório, a Cognition deslocava engenheiros dos Estados Unidos com regularidade para atender Itaú e Santander. O modelo não escalava.

A estrutura em São Paulo tem duas funções distintas. Os account directors cuidam da relação comercial. Os forward deployed engineers trabalham dentro dos times do cliente, adaptando a tecnologia e integrando sistemas.

Quatro desses engenheiros já estão operando. A meta é chegar a cerca de dez profissionais até o fim de 2026.

A empresa também tem processos de contratação no México e engenheiros atuando na Argentina e no Chile.

A escalada que explica a pressa

O ritmo da companhia é o dado mais impressionante do caso, e ele se lê melhor em sequência.

Em 2025, depois de comprar a Windsurf, a Cognition foi avaliada em cerca de US$ 10 bilhões. Em maio de 2026, chegou a US$ 26 bilhões. Em setembro, captou US$ 2 bilhões em uma Série E que a avaliou em US$ 48 bilhões.

A receita acompanhou. Em maio, era de US$ 492 milhões anualizados. Em setembro, quase US$ 900 milhões. Praticamente dobrou em quatro meses, no mesmo intervalo do salto de valuation.

A rodada foi liderada por Andreessen Horowitz e Accel, com Founders Fund, General Catalyst e Avenir.

Duas ressalvas sobre esses números. A receita citada é run rate, a projeção anual a partir do ritmo do mês, não faturamento realizado em doze meses. E parte do crescimento é comprada, não orgânica: a aquisição da Windsurf, em julho de 2025, trouxe US$ 82 milhões de ARR e mais de 350 clientes corporativos. Em junho deste ano, a Windsurf foi renomeada para Devin Desktop.

O que o próprio CEO diz sobre substituir gente

Há uma posição da companhia que destoa do que o nome do produto sugere.

Em maio, Scott Wu, cofundador e CEO, afirmou publicamente que agentes de IA para programação não deveriam substituir desenvolvedores humanos. Vindo de quem vende um produto batizado de engenheiro de software de IA, é uma declaração que merece ser registrada.

É também coerente com o desenho do produto. Um agente acionado por Slack e GitHub, que devolve trabalho para revisão, pressupõe alguém do outro lado revisando.

O que não foi divulgado

A Cognition não informou o investimento no escritório brasileiro, a receita gerada no país nem o modelo de cobrança do Devin.

Falta também a informação que mais interessaria a quem avalia contratar: nenhum resultado mensurado nos clientes foi apresentado. Não há dado de ganho de produtividade, redução de prazo ou economia de custo em nenhuma das empresas citadas.