As vendas de cotas de consórcio de imóveis cresceram 39,9% no acumulado de janeiro a agosto de 2026. Foram 1,14 milhão de novas adesões, 325 mil a mais que no mesmo período do ano passado.
O número de participantes ativos também subiu, 33,6%, chegando a 3,34 milhões de pessoas.
É o segmento que mais cresce dentro de um sistema que já cresce. No consórcio como um todo, as vendas avançaram 15,1% no período, somando 3,82 milhões de cotas, segundo a Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios. Veículos leves subiram 8,2% e motocicletas, 7,7%.
Por que o imóvel e por que agora
O consórcio inverte a lógica do financiamento, e é isso que o torna atraente quando o crédito está caro.
No financiamento, o banco entrega o dinheiro agora e o comprador passa anos pagando a dívida com juros sobre o saldo. No consórcio, o participante entra num grupo e paga parcelas que formam um fundo comum. Todos terão direito à carta de crédito, mas cada um só pode usá-la quando for contemplado, por sorteio ou por lance.
A troca é direta: abre-se mão da certeza de comprar agora em troca de uma estrutura de custo diferente, sem juros sobre saldo financiado.
Com a taxa básica no maior nível em quase duas décadas, o financiamento imobiliário fica mais caro e mais escasso, e o consórcio aparece como alternativa para quem não precisa do imóvel imediatamente.
O movimento não começou neste ano. Entre 2019 e 2024, as vendas de cotas de consórcio imobiliário cresceram 197,9%, e o Banco Central já apontava em seu relatório de 2024 os imóveis como o segmento que mais contribuía para o crescimento do sistema.
Sem juros não é sem custo
A ausência de juros sobre saldo é real, mas não significa gratuidade.
As administradoras cobram para organizar e operar os grupos. Nos consórcios imobiliários constituídos em 2024, a taxa média de administração era de 20,8% ao longo do contrato, segundo o Banco Central. Os contratos também podem prever outros custos e reajustes.
E existe um custo que não aparece como taxa: tempo e incerteza. O prazo médio dos grupos imobiliários constituídos naquele ano era de 217 meses, pouco mais de 18 anos. O participante pode ser sorteado ou tentar antecipar a contemplação oferecendo um lance, mas entra sem saber quando poderá usar o crédito.
O número que precisa de contexto
Nos primeiros oito meses do ano foram comercializados R$ 231,9 bilhões em créditos de consórcio imobiliário.
Esse valor representa as cartas de crédito contratadas por quem entrou no sistema. Não são R$ 231,9 bilhões em imóveis comprados.
Para o dinheiro ficar disponível, o participante precisa primeiro ser contemplado. Entre janeiro e agosto, ocorreram cerca de 110 mil contemplações, 17,9% acima do mesmo período de 2025, liberando R$ 22,43 bilhões em créditos.
Também não dá para comparar 1,14 milhão de novas cotas com 110 mil contemplações como se um fosse a conversão do outro. Não são as mesmas pessoas. Quem é contemplado hoje pode ter entrado anos atrás, e boa parte das cotas vendidas agora seguirá dentro do sistema pelos próximos anos.
Onde a aceleração está acontecendo
As três taxas do período:
Novas cotas vendidas: +39,9%
Participantes ativos: +33,6%
Contemplações: +17,9%
A expansão é mais forte na entrada do sistema do que na saída. Entram mais pessoas do que saem com o crédito na mão, o que é esperado num sistema em crescimento, já que o grupo precisa se formar antes de contemplar, mas é o dado que define a leitura do momento.
No sistema inteiro, a mesma assimetria aparece. Os créditos comercializados cresceram 24,2%, para R$ 389,59 bilhões, enquanto o crédito efetivamente liberado cresceu 6,5%, para R$ 85,72 bilhões.
O tíquete médio de agosto foi de R$ 113,57 mil, 13,8% acima do mesmo mês de 2025, e os participantes ativos do sistema somavam 13,55 milhões, alta de 12,0%.
"Novamente os resultados reafirmaram o conhecimento do brasileiro sobre a essência da educação financeira", disse Paulo Roberto Rossi, presidente-executivo da ABAC.
A pergunta que os dados ainda não respondem
Quantas dessas novas cotas chegarão até a contemplação.
Como os grupos podem durar mais de uma década, a resposta não aparece agora. O que os números de 2026 mostram é um segmento acelerando por motivos econômicos claros, com um compromisso cujo prazo médio é mais longo que o de muitos financiamentos.
Fontes: ABAC, via Estado de Minas · Blog da ABAC · AutoData
