A Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) informou nesta sexta-feira, 30 de outubro de 2026, em fato relevante enviado à CVM, que assinou um acordo de exclusividade de dez dias com a chinesa Huaxin Building Materials para tentar fechar a venda da CSN Cimentos. O acordo considera um valor de empresa (enterprise value) de R$ 12,7 bilhões, número que soma o preço das ações à dívida da cimenteira. O contrato definitivo ainda não foi assinado, e a CSN diz que a intenção é fazê-lo "em matéria de dias".
Controlada pelo empresário Benjamin Steinbruch, a CSN atua em siderurgia, mineração, cimento, logística e energia, e teve receita líquida de R$ 11,3 bilhões no segundo trimestre de 2026. O grupo vive um momento de aperto: terminou junho com dívida líquida de R$ 42,1 bilhões, 3,49 vezes o Ebitda de 12 meses, e teve prejuízo de R$ 773,1 milhões no trimestre. No fechamento desta sexta, a empresa inteira valia R$ 5,1 bilhões na bolsa, segundo a CNBC.
O que está à venda
A CSN Cimentos é a segunda maior produtora de cimento do Brasil, com cerca de 20% do mercado, atrás apenas da Votorantim Cimentos, segundo o Estadão. Tem capacidade de 16,3 milhões de toneladas por ano e 13 operações, com presença em todas as regiões do país, exceto Sul e Norte.
É também uma das partes mais rentáveis do grupo. No segundo trimestre, vendeu 3,1 milhões de toneladas e teve receita líquida de R$ 1,39 bilhão, alta de 14,3% em um ano. O Ebitda ajustado foi de R$ 426,9 milhões, recorde pelo segundo trimestre seguido, com margem de 30,8%, contra 10,5% na siderurgia. Segundo a XP, o Ebitda dos últimos 12 meses é de R$ 1,6 bilhão.
Na disputa, as propostas miravam 100% do negócio, segundo o Pipeline. O processo começou em março e atraiu vários grupos locais e estrangeiros, três deles chineses, segundo o Estadão. A partir de agosto, as conversas se concentraram na Huaxin e num consórcio da Votorantim Cimentos com a italiana Cementir. Segundo a CSN, a Huaxin apresentou "a proposta mais vantajosa".
O valor ficou abaixo do objetivo de Steinbruch, de cerca de R$ 15 bilhões, segundo pessoas próximas a ele ouvidas pelo Estadão. O Citi estima a dívida líquida da cimenteira em R$ 3 bilhões, também segundo o jornal, e a CSN não informou quanto espera receber pelas ações.
Por que a CSN vende
A cimenteira é o principal ativo de um plano lançado em 15 de janeiro, com o qual a CSN pretende reduzir de R$ 15 bilhões a R$ 18 bilhões de sua dívida. O plano inclui ainda a venda de uma fatia de 30% a 40% dos ativos de infraestrutura, como porto, ferrovia e logística. Fora desse pacote, a siderúrgica de aços longos SWT, na Alemanha, foi negociada há menos de um mês com um grupo espanhol por R$ 3,1 bilhões, segundo o Estadão.
O prazo pesa. Em abril, a CSN contratou com um grupo de bancos um empréstimo-ponte, crédito que cobre o caixa até a entrada do dinheiro de uma venda, de US$ 1,2 bilhão, cerca de R$ 6,5 bilhões. A CSN Cimentos é a principal garantia, e os juros podem subir de forma progressiva, segundo a Broadcast. Neste ano, a Fitch rebaixou a nota de crédito do grupo para CCC+, e a Moody's, para Caa1, níveis de alto risco. O valor de mercado, de R$ 11,8 bilhões no fim de 2025, caiu mais da metade.
Segundo a XP, a venda levaria a dívida líquida de R$ 42,1 bilhões para R$ 29,4 bilhões e a relação com o Ebitda, de cerca de 3,5 vezes para 2,8 vezes. O Bradesco BBI calcula uma redução de quase R$ 1,5 bilhão nas despesas anuais com juros, e o JPMorgan vê no negócio um caminho para quitar o empréstimo-ponte. Para o banco americano, o preço equivale a cerca de 7,7 vezes o Ebitda previsto para 2026, abaixo do múltiplo de 8 vezes que considera justo.
As quatro casas, incluindo o Citi, consideram o negócio positivo, mas ressaltam que ele não encerra o problema. O Bradesco BBI e o JPMorgan dizem que a CSN precisará de novos desinvestimentos, e o Citi espera que a empresa continue buscando reduzir o endividamento, diante dos juros altos e da piora nas estimativas para o minério de ferro. Segundo o Estadão, o negócio de minério enfrenta preços abaixo de US$ 100 por tonelada, cerca de R$ 542, e fretes mais caros para a China por causa da guerra entre Estados Unidos e Irã.
Quem é a Huaxin
Fundada em 1907 em Wuhan, a Huaxin é uma das líderes em cimento e materiais de construção na China, com ações nas bolsas de Xangai, desde 1994, e de Hong Kong, desde 2022. Produz cerca de 130 milhões de toneladas por ano, das quais cerca de 40 milhões fora da China, e está entre as dez maiores do setor no mundo, segundo analistas ouvidos pelo Estadão. A Holcim, uma das maiores cimenteiras do mundo e parceira desde 1999, é a maior acionista, com cerca de 40%, segundo informações do mercado citadas pelo jornal.
A empresa vem comprando ativos no exterior. Em 2024, ficou com as operações da InterCement na África do Sul e em Moçambique e, em dezembro daquele ano, entrou no Brasil ao comprar a Embu, mineradora paulista de brita, por US$ 186 milhões, cerca de R$ 1 bilhão. Pessoas do setor ouvidas pelo Estadão dizem que a chegada preocupa, porque os chineses têm capital mais barato do que as concorrentes locais, e que a Huaxin teria planos de combinar cimento e concreto para atender empresas chinesas que investem em infraestrutura no país.
A reação da bolsa
A ação da CSN fechou a sexta a R$ 3,88, em queda de 8,49% ante os R$ 4,24 de quinta. Foi a segunda maior queda do Ibovespa, que perdeu 0,75%. A primeira foi a da Usiminas, concorrente em siderurgia, que caiu 8,59%, a R$ 5,00, depois de um balanço abaixo do esperado. O dia encerrou a pior semana do índice desde março de 2020, com queda de 18,12%.
O acordo de exclusividade vai até 10 de novembro, segundo o Estadão. A CSN divulga os resultados do terceiro trimestre dois dias depois, em 12 de novembro.
