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O governo federal criou a terceira fase do Desenrola Brasil, programa de renegociação de dívidas de pessoas físicas. A medida provisória que institui o Desenrola 3.0 foi assinada em 25 de setembro.

A mudança desta fase não é o tamanho do desconto. É quem está do outro lado da mesa.

O governo vira comprador de dívida

Nas versões anteriores, o devedor negociava com quem emprestou: o banco, a loja, o prestador de serviço.

Agora o caminho é outro. A União convoca os credores a oferecerem carteiras de dívidas não pagas, ordena as propostas pelo maior desconto e compra as vencedoras. O abatimento obtido na compra é repassado integralmente ao devedor.

A cobrança do saldo passa a ser operada por Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil, por meio de fundos de investimento em direitos creditórios, os FIDC, que são veículos criados justamente para comprar e administrar carteiras de crédito.

Na prática, o consumidor deixa de dever à loja e passa a dever a um fundo tocado por banco público.

Quem entra

Os critérios são estreitos e vale conferir antes de criar expectativa:

  • Dívida de até R$ 10 mil, pelo valor original

  • Atraso de mais de 720 dias, ou seja, acima de dois anos

  • Atraso de menos de 1.645 dias, cerca de quatro anos e meio

  • Dívidas bancárias e não bancárias, o que inclui loja e prestador de serviço

Quem está inadimplente há menos de dois anos fica de fora. Quem está há mais de quatro anos e meio, também.

O Ministério da Fazenda ainda pode definir critérios adicionais de renda e de prioridade entre devedores.

O desconto é mínimo, não máximo

Aqui há uma imprecisão que circulou bastante na cobertura.

A medida estabelece desconto mínimo de 90% sobre o valor de face das carteiras ofertadas, e não desconto de "até 90%". É o piso que o credor precisa oferecer para que sua carteira seja considerada no leilão, e as propostas são classificadas pelo maior abatimento.

O saldo que sobrar pode ser pago à vista ou parcelado, com juros, em condições que ainda serão regulamentadas.

A conta que permite R$ 15 bilhões virarem R$ 150 bilhões

O Ministério do Planejamento e Orçamento reservou R$ 15 bilhões para a operação. A expectativa oficial é alcançar até R$ 150 bilhões em dívidas elegíveis, com cerca de R$ 75 bilhões efetivamente renegociados, beneficiando até 15 milhões de pessoas.

Dez vezes mais dívida do que dinheiro disponível só fecha por causa do desconto. Comprando a 10% do valor de face ou menos, cada real do orçamento adquire dez reais de dívida.

É também por isso que o alcance real depende do leilão. Se os credores não oferecerem desconto suficiente, o governo compra menos do que planejou.

Quando o desconto chega

Este é o ponto que separa a manchete da realidade do devedor.

A medida provisória está valendo desde a assinatura, mas o cronograma é longo:

  • Novembro de 2026: chamamento das propostas

  • Dezembro de 2026: entrega das propostas pelos credores

  • Janeiro de 2027: seleção e aprovação

  • Fevereiro de 2027: assinatura dos contratos e início do repasse dos descontos

Ou seja, quem está endividado hoje não tem nada a fazer agora. O benefício começa a existir daqui a cerca de quatro meses.

O que as fases anteriores entregaram

As duas primeiras edições do Desenrola alcançaram 25 milhões de pessoas e renegociaram R$ 75 bilhões no total.

A meta desta terceira fase, sozinha, é igualar esse volume de renegociação.

A crítica

A operação não é consenso. A principal objeção é fiscal: o programa usa recurso público para comprar dívida privada, e isso amplia o risco orçamentário.

Há também uma ressalva de desenho. Como a compra depende de leilão, o resultado fica à mercê do preço que os credores aceitarem. Carteira muito antiga costuma ser vendida barato porque a chance de recuperação é baixa, e é exatamente esse perfil que o programa mira. Mas se os detentores enxergarem valor maior do que o governo está disposto a pagar, o volume encolhe.

O que ainda não está definido

Os critérios adicionais de renda não foram publicados. A taxa de juros do parcelamento do saldo ainda será regulamentada. E não se sabe quais credores vão aderir até o leilão acontecer.

Uma delimitação importante para quem tem empresa: o Desenrola 3.0 é para pessoa física. MEI e dívidas de CNPJ não entram.