Todo negócio físico nasce com duas contas fixas: o aluguel do espaço e a folha de quem fica dentro dele. O aluguel, a maioria dos donos negocia até o limite. A folha, quase ninguém questiona. Ela simplesmente entra na conta.
Em 2019, um analista de banco em Nova York resolveu questionar justamente essa segunda conta. Seis anos depois, a empresa que ele criou tinha 20 unidades em seis estados americanos, havia sido avaliada em US$ 50 milhões e continuava operando sem funcionários no local.
A empresa se chama PingPod e ela aluga mesas de ping-pong por hora.
A demanda existia. A conta é que não fechava.
O ping-pong está entre os esportes mais praticados do mundo, com centenas de milhões de jogadores. Nos Estados Unidos, cerca de 16 milhões de pessoas praticam o esporte.
Ainda assim, quando David Silberman se mudou para Nova York, descobriu que quase não tinha onde jogar. As opções eram extremas: ou você pagava uma fortuna por uma experiência “gourmet”, em clubes focados em bar e eventos, ou aceitava jogar em espaços baratos e improvisados, com equipamentos mal conservados. Faltava uma opção simples: um lugar bom para jogar a um preço justo.
Silberman trabalhava como analista de ações no UBS e começou a olhar para aquela lacuna como uma oportunidade. O problema é que, em Manhattan, essa simplicidade saía cara. Para manter um clube aberto, era preciso pagar um dos metros quadrados mais caros do país e ainda bancar alguém no balcão durante todo o horário de funcionamento.
Quanto mais horas a porta ficasse aberta, mais a folha crescia. Silberman levou a ideia para Max Kogler, executivo com passagem pelo Goldman Sachs. A primeira reação foi direta: "Isso nunca vai funcionar." Depois, Kogler fez as contas. Mudou de ideia e entrou como cofundador e CEO. Juntos, passaram a tentar resolver o que tornava aquele modelo tão difícil: como fazer um clube de ping-pong fechar a conta em Manhattan.
A decisão que mudou tudo.
A saída não foi cobrar mais caro nem transformar o espaço em bar. Foi fazer o clube funcionar sem depender de alguém fisicamente ali.
A primeira PingPod abriu em fevereiro de 2020, no Lower East Side. A lógica é simples: o cliente aluga uma mesa por hora pelo aplicativo, paga antecipadamente, recebe um código, destrava a porta, joga e vai embora. Sem recepção. Sem atendente.
Só que tirar o funcionário do local não faz o trabalho dele desaparecer. A reserva paga substitui a cobrança. O código substitui a chave. Câmeras e segurança remota substituem parte da supervisão. Regras e multas cuidam das exceções que antes exigiriam alguém no balcão.
A PingPod não automatizou apenas o trabalho do atendente. Automatizou a necessidade de ele estar ali.
E é aqui que a história fica interessante.
Até esse ponto, parece apenas uma história de redução de custos. Menos gente, menos custos, mais margem. Mas o maior ganho apareceu do outro lado da conta.
Imagine um clube tradicional às duas da manhã. Pode até existir gente querendo jogar. O problema é que talvez a demanda naquela hora não seja suficiente para justificar manter um funcionário ali. A demanda existe. O problema é que não compensa atendê-la.
Na PingPod, essa restrição praticamente desaparece.Manter a porta aberta por mais uma hora praticamente não aumenta o custo da operação. Com isso, a PingPod pode funcionar 24 horas por dia. Nas unidades mais maduras, as mesas chegam a ser utilizadas por cerca de 22 horas por dia.
Foi aí que apareceu o dado que muda a interpretação do negócio: aproximadamente 48% do uso acontece fora do horário de pico. Quase metade da utilização vem justamente de períodos em que um clube tradicional teria dificuldade para justificar a operação.
Ou seja, a automação não fez apenas a PingPod gastar menos. Transformou horários que antes não compensavam em novas horas de receita. O aluguel era o mesmo. As mesas eram as mesmas. O que mudou foi quantas horas por dia o mesmo metro quadrado podia gerar receita.
A conta finalmente fechou.
Uma unidade atinge o ponto de equilíbrio com cerca de 20% de ocupação. As unidades mais maduras passam de 40%, com margens operacionais reportadas entre 25% e 35%. Mas a automação ainda abriu uma segunda oportunidade.
O sistema criado para operar as próprias unidades da PingPod também resolvia o problema de clubes de tênis, padel, golfe, squash e outros esportes. Foi daí que nasceu a PodPlay, um software para automatizar reservas, pagamentos, controle de acesso e a operação desses espaços.
Em 2025, ela foi separada da PingPod e captou US$ 8 milhões em investimento. Uma ferramenta criada para resolver uma restrição interna acabou se tornando um negócio próprio.
Automação não é só eficiência. É expansão.
Quando uma empresa pensa em automatizar, a conta quase sempre começa da mesma forma: "Quanto tempo economiza? Quantas tarefas elimina? Quanto reduz da folha?”
São perguntas válidas. Mas a PingPod mostra que existe uma pergunta maior. Ao reduzir o custo de manter a operação disponível, ela tornou economicamente viável atender uma demanda que já existia, mas antes não compensava.
E essa lógica ficou ainda mais relevante com a IA. Se uma tarefa passa a custar dez vezes menos, levar dez vezes menos tempo ou exigir muito menos intervenção humana, o ganho não está apenas em fazer mais barato o que sua empresa já fazia.
Talvez coisas que ontem não fechavam a conta passem a fechar hoje. Por isso, diante de uma nova automação, vale ir além de: “Quanto isso pode me economizar?” E se perguntar: “Que novo produto ou serviço isso me permite oferecer que antes não era viável?”
- Um escritório jurídico pode revisar contratos pequenos que antes não compensavam as horas de um advogado.
- Um escritório de contabilidade pode oferecer análises semanais para clientes que antes só recebiam um fechamento mensal.
- Uma seguradora pode processar sinistros pequenos com muito menos intervenção humana.
O ponto é o mesmo em todos os casos. Quando o custo de entregar algo cai o suficiente, demandas que antes não compensavam podem se transformar em novos mercados.
A maior oportunidade da automação, muitas vezes, não está no custo que ela elimina. Está na receita que só passa a existir depois dela.
