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As estatais federais fecharam os oito primeiros meses de 2026 com déficit primário de R$ 6,518 bilhões. É o pior resultado para o período desde o início da série do Banco Central, em dezembro de 2001. O número saiu na Nota de Estatísticas Fiscais divulgada em 30 de setembro.

O recorde, isolado, diz pouco. O que ele significa aparece na sequência: os três piores janeiro a agosto de toda a série são os três últimos.

O que esse número mede

Resultado primário é o que a empresa arrecada menos o que ela gasta, investimentos incluídos, antes de pagar ou receber juros.

Não é lucro contábil e não é dívida. É uma medida de operação: quando fica negativo, significa que a empresa consumiu mais recursos do que gerou fazendo aquilo que ela faz, sem contar o custo financeiro.

A distinção importa porque os dois números mais citados nessa discussão medem coisas diferentes, e não se somam.

Quem está dentro da conta

Aqui está o recorte que costuma sumir na manchete.

A estatística do Banco Central cobre apenas as estatais federais que não são instituições financeiras e que vivem da própria receita. A nota de rodapé da própria autoridade monetária é explícita ao excluir as empresas dos grupos Petrobras e Eletrobras.

Também ficam fora os bancos públicos, como Caixa e Banco do Brasil, e as estatais sustentadas por repasse do Tesouro, como a Embrapa, que são contabilizadas dentro do Governo Central.

O que sobra é um grupo de empresas que deveriam se sustentar sozinhas: Correios, Infraero, Serpro, Dataprev, Casa da Moeda, Hemobrás, Emgea e Emgepron, entre outras.

Ou seja, o dado não é o resultado das estatais brasileiras. É o resultado de um conjunto específico de empresas federais que não dependem de dinheiro do Tesouro para funcionar, e que estão gastando mais do que arrecadam.

O recorde caiu três vezes seguidas

Antes de 2024, o pior janeiro a agosto da série tinha sido o de 2003, com déficit de R$ 2,36 bilhões. Esse patamar ficou de pé por duas décadas.

Depois caiu três anos consecutivos:

  • 2024: R$ 3,37 bilhões

  • 2025: R$ 5,57 bilhões

  • 2026: R$ 6,518 bilhões

O rombo deste ano, com oito meses, já é maior que o de 2025 inteiro, que fechou em R$ 5,14 bilhões.

Até 2022, a conta fechava com sobra

A deterioração é recente, e a série inteira mostra isso com clareza.

Em 2018, essas empresas entregaram superávit primário de R$ 3,47 bilhões. Em 2019, de R$ 10,29 bilhões, o melhor ano do histórico. Houve um déficit de R$ 614 milhões em 2020, no auge da pandemia, e depois a sobra voltou: R$ 3,03 bilhões em 2021 e R$ 4,75 bilhões em 2022.

A virada começou em 2023, com um déficit pequeno, de R$ 656 milhões. No ano seguinte o buraco saltou para R$ 6,73 bilhões, o maior déficit anual de toda a série. Em 2025 ficou em R$ 5,14 bilhões.

Desde 2023, nenhum ano fechou no azul.

O ano, mês a mês

Em 2026, essas empresas ficaram no vermelho em todos os meses de janeiro a julho.

Janeiro foi o pior, com déficit de R$ 3,33 bilhões, mais da metade de tudo o que o ano acumularia até agosto. Depois vieram fevereiro com R$ 829 milhões, março com R$ 248 milhões, abril com R$ 1,53 bilhão, maio com R$ 27 milhões, junho com R$ 1,84 bilhão e julho com R$ 476 milhões.

Somados, os sete primeiros meses davam R$ 8,28 bilhões de déficit, também o maior da série para o período.

Agosto quebrou a sequência

Então veio agosto, com superávit de R$ 1,759 bilhão.

Foi o melhor agosto de toda a série. O segundo melhor, em 2023, tinha sido de R$ 1,39 bilhão. No mesmo mês de 2025, o resultado havia sido um déficit de R$ 44 milhões.

Foi esse único mês que trouxe o acumulado do ano de R$ 8,28 bilhões para R$ 6,518 bilhões. A nota do Banco Central não explica o que puxou a melhora.

Vale registrar a direção: o recorde negativo é do acumulado. Em agosto não houve piora, houve o contrário.

O tamanho na foto fiscal

Considerando os doze meses encerrados em agosto, o déficit dessas empresas soma R$ 6,085 bilhões, o equivalente a 0,05% do Produto Interno Bruto.

No mesmo período, o setor público consolidado registrou déficit primário de R$ 82,1 bilhões, ou 0,62% do PIB. As estatais federais, portanto, respondem por algo em torno de 7% do rombo primário do setor público.

É pouco. Cinco centésimos de um por cento do PIB não movem a política fiscal. O que chama atenção não é a magnitude, é a marca histórica e o fato de um grupo que entregava superávit ter passado a consumir recursos de forma persistente.

O Banco Central não aponta culpados

A autoridade monetária divulga o consolidado, não a composição. Não há detalhamento público de quais empresas respondem por qual parcela do déficit, e o texto da nota de setembro não comenta estatais nem menciona qualquer companhia.

Isso significa que a ligação entre o rombo e uma empresa específica é inferência, não dado oficial. Mas uma empresa do grupo está num patamar de perda que torna a inferência quase inevitável.

Os Correios

As demonstrações contábeis de 2025, divulgadas em 23 de abril de 2026, registram prejuízo de R$ 8,4 bilhões. No ano anterior, a perda havia sido de R$ 2,6 bilhões.

O número mais severo do balanço não é o prejuízo. É o patrimônio líquido: negativo em R$ 13,1 bilhões. Patrimônio líquido negativo significa que as obrigações da empresa superam tudo o que ela tem. Numa companhia privada, essa é a linha que abre conversa sobre recuperação judicial.

A maior parte do estrago veio da Justiça. A empresa reapresentou provisões trabalhistas ligadas ao Adicional de Atividade de Distribuição e Coleta e ao Adicional de Periculosidade, e reconheceu R$ 2,63 bilhões em precatórios e contingências acumuladas de gestões anteriores. O passivo com processos judiciais chegou a R$ 6,4 bilhões.

Ao mesmo tempo, a receita encolheu. A receita bruta caiu 11,35%, para R$ 17,3 bilhões. A empresa fechou o ano com R$ 2,17 bilhões em caixa e equivalentes, valor que, segundo ela, garante a continuidade dos contratos e dos investimentos planejados.

O plano de saúde dos funcionários entrou na conta: a Postal Saúde teve perda de R$ 844 milhões em 2025.

2026 não reverteu

No primeiro semestre deste ano, o prejuízo foi de R$ 5,55 bilhões, 30,36% acima dos R$ 4,26 bilhões do mesmo período de 2025.

Dentro do semestre, porém, há uma inflexão. O primeiro trimestre perdeu R$ 3,16 bilhões e o segundo, R$ 2,39 bilhões, uma redução de 24,4% de um trimestre para o outro e de 5,5% na comparação com o segundo trimestre do ano passado.

A receita, no entanto, continua caindo. A receita líquida de vendas e serviços somou R$ 4,01 bilhões no segundo trimestre, 5,41% menos que os R$ 4,24 bilhões de abril a junho de 2025.

Perder menos não é o mesmo que vender mais.

O dinheiro que o Tesouro barrou

A trajetória do financiamento explica parte do aperto.

Em dezembro de 2025, o conselho de administração dos Correios aprovou um empréstimo de R$ 20 bilhões com um pool formado por Banco do Brasil, Citibank, BTG Pactual, ABC Brasil e Safra.

O Tesouro Nacional reprovou a operação em 3 de dezembro. O motivo foi o preço: os bancos pediam 136% do CDI, e o teto da União para operações de crédito de dez anos com garantia é de 120%. Com a Selic a 15% ao ano, a diferença é de cerca de 20% contra 18% ao ano.

Sem o aval, a União não garante a dívida, e o empréstimo perde a proteção que o tornava viável naquele custo.

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“A Diretoria Executiva segue trabalhando, em conjunto com os ministérios, na avaliação de alternativas que reforçem a liquidez imediata dos Correios”, informou a empresa na ocasião.

A alternativa veio em seguida, menor: R$ 12 bilhões com Banco do Brasil, Caixa, Itaú, Bradesco e Santander, com garantia da União. Novas captações seguem em negociação, estruturadas por Citibank, Deutsche Bank, ABC Brasil e J.P. Morgan, ainda dependentes de autorização do Tesouro. Os valores em discussão variam conforme a fonte, entre R$ 7 bilhões e R$ 12 bilhões.

O governo também assumiu o compromisso de um aporte de capital de R$ 6 bilhões até o fim de 2027.

O plano, e o que saiu do papel

O plano de reestruturação foi desenhado em dezembro de 2025 e começou a ser executado em janeiro de 2026. Ele promete, para 2026 e 2027:

  • Programa de demissão voluntária para 15 mil funcionários

  • Fechamento de cerca de 1.000 unidades

  • Venda e sale and leaseback de imóveis, com receita prevista de R$ 1,5 bilhão

  • Revisão de salários dos níveis alto e médio

  • Ajuste nos planos de saúde e previdência

  • Economia anual estimada em R$ 2,1 bilhões

Até o fim de setembro de 2026, parte saiu do papel. O programa de demissão voluntária teve 3.748 desligamentos em 2025 e cerca de 3.200 adesões na fase atual, contra uma meta de 10 mil até o fim do ano. Os custos variáveis com pessoal caíram 32% em relação a 2024. A empresa renegociou 40% das dívidas em atraso, com economia de R$ 321 milhões.

Na operação, os indicadores melhoraram. Os atrasos na entrega de encomendas caíram 43%, e o índice de recomendação dos clientes subiu quase 24 pontos desde janeiro. A empresa lançou um marketplace, o Mais Correios, e uma conta digital em parceria com a Dock.

O fechamento de agências é a parte sem número divulgado.

O contra-argumento do governo

O Ministério da Gestão sustenta que o déficit primário não é a melhor régua para avaliar essas empresas.

O argumento é que uma estatal pode ficar no vermelho justamente porque está investindo para crescer, e que o mais justo seria olhar o resultado contábil, como se faz com qualquer companhia privada.

O argumento tem lógica, e vale para boa parte do grupo. Mas, aplicado à empresa que puxa o resultado, ele não ajuda: pela régua contábil, os Correios tiveram o pior ano da sua história e terminaram com patrimônio líquido negativo.

O que o dado não diz

O Banco Central não abre o resultado por empresa, o que impede saber se o déficit está concentrado em uma operação ou espalhado pelo grupo.

Prejuízo contábil e resultado primário também não são a mesma coisa. Boa parte das provisões judiciais dos Correios é lançamento contábil e não sai do caixa no ano, o que significa que os R$ 8,4 bilhões e os R$ 6,5 bilhões não se somam nem se comparam diretamente.

Não foram divulgadas a projeção de fechamento de 2026 nem uma meta fiscal específica para o grupo.

Fica o contraste. Em 2019, essas mesmas empresas entregaram superávit de R$ 10,29 bilhões. Em 2024, o déficit de um ano inteiro foi de R$ 6,73 bilhões. Em 2026, oito meses já consumiram R$ 6,518 bilhões.