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O financiamento de veículos registrou em agosto o melhor desempenho para o mês em 15 anos. Foram 683.928 unidades financiadas, alta de 10,4% sobre agosto de 2025.

O último agosto melhor foi o de 2011, com 729.672 veículos. No acumulado de janeiro a agosto deste ano, são 5,136 milhões de contratos, crescimento de 10% sobre o mesmo período do ano passado.

Os dados são da Trillia, unidade da B3 voltada a dados e inteligência artificial.

Onde está o volume

Os veículos leves puxaram o mês, com 478 mil unidades financiadas. Desse total, 350 mil são zero quilômetro e 127 mil são usados ou seminovos. O segmento cresceu 1,4% sobre julho.

As motos somaram 178 mil contratos, alta de 4,9% na comparação anual. Os pesados fecharam em 27 mil operações, com crescimento de 10,4%.

Vale reparar na proporção: quase três em cada quatro financiamentos de leves foram de carro novo. Não é um mercado sustentado por troca de usado.

O mapa do crédito

A distribuição regional é concentrada, mas menos do que se imagina.

O Sudeste responde por 42% das operações. O Sul vem com 20% e o Nordeste logo atrás, com 19,8%. Centro-Oeste tem 10,7% e o Norte, 7,5%.

Sul e Nordeste praticamente empatados é o dado que destoa da leitura habitual sobre onde está o consumo de bem durável no país.

O preço desse crédito

O volume impressiona mais quando se olha quanto ele custa.

Em janeiro deste ano, a taxa média de juros para financiamento de veículo zero quilômetro estava em 27,7% ao ano, segundo o Banco Central. É o maior patamar desde abril do ano anterior, quando havia chegado a 28,1%.

Para efeito de comparação, a menor taxa disponível no mercado é a do Banco CNH Industrial Capital, com 0,37% ao mês, o equivalente a 4,5% ao ano. A diferença entre as duas passa de seis vezes.

Isso mostra o que são as taxas de banco de montadora: exceção subsidiada, não o custo real do crédito para a maioria dos compradores. Marcas como Mercedes-Benz, BMW, Volvo e Hyundai operam essas condições em parceria promocional com as fábricas, e parte do juro é absorvida na margem de quem quer girar estoque.

O comprador que financia fora desse arranjo paga perto de 28% ao ano, com a Selic em 14,5%.

O sinal amarelo

Junto com o volume recorde, veio um segundo número que merece atenção.

A inadimplência no financiamento de veículos está em 5,6%, a maior marca desde maio de 2023.

É a combinação incômoda: mais contratos sendo assinados, a um custo alto, com uma parcela crescente deles deixando de ser paga. Crédito em expansão de dois dígitos com inadimplência em máxima de três anos não descreve um mercado barato se aquecendo. Descreve um mercado caro que continua girando.

O que o prazo esconde

Há um dado que ajudaria a fechar o quadro e não foi divulgado junto com o recorde: o prazo médio dos contratos.

Ele importa porque prazo é a variável que torna a parcela suportável quando o juro é alto. Os financiamentos praticados no país vão de 24 a 60 meses, e contratos de 24 a 36 meses saem com taxa de 0,5 a 1 ponto percentual menor que os de 48 a 60.

Se o volume está crescendo por alongamento de prazo, o que se tem é mais gente entrando no crédito pagando mais juro ao longo de mais tempo, e não necessariamente mais gente com capacidade de pagamento. Sem o número, a diferença entre os dois cenários fica em aberto.

O preço voltou a subir

Depois de um período de deflação, o preço do carro novo subiu 2,7% em agosto na comparação com julho.

No acumulado de 12 meses, porém, os novos ainda acumulam variação negativa de 1,1%, e os usados caíram 3,9%. A alta de agosto é uma reversão recente, não uma tendência consolidada.

Um sinal de alerta no pesado

Entre os caminhões, o financiamento cresceu 10,4% até agosto, mas o crédito para veículos usados perdeu ritmo no período.

É um descolamento que costuma aparecer quando o comprador de menor porte, que troca no seminovo, começa a ficar de fora do crédito antes do comprador de zero quilômetro. Para quem vende caminhão usado, vale acompanhar.