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Hackers tiraram cerca de US$ 6,3 bilhões, aproximadamente R$ 34,2 bilhões, da Binance na quinta-feira, 29 de outubro de 2026, segundo a própria corretora. O ataque começou às 17h05, no horário de Brasília, e a maior parte do dinheiro saiu em cerca de 20 minutos, por dez blockchains, segundo a TRM Labs, empresa que rastreia transações em criptomoedas. É o maior roubo de criptomoedas já registrado, cerca de quatro vezes o recorde anterior.

A Binance é a maior corretora de criptomoedas do mundo. Tem 335 milhões de usuários cadastrados e guardava cerca de US$ 162,8 bilhões, aproximadamente R$ 883 bilhões, em ativos de clientes, segundo o relatório anual de 2025 citado pela Reuters. A empresa é comandada por dois copresidentes-executivos, Yi He e Richard Teng. O fundador, Changpeng Zhao, conhecido como CZ, não dirige mais a companhia, mas é o maior acionista, segundo o TechCrunch.

Depois do ataque, a corretora suspendeu os saques, mas manteve os depósitos e os demais serviços funcionando.

Como os hackers entraram

O dinheiro saiu das hot wallets da Binance, as carteiras ligadas à internet que uma corretora usa para processar os saques dos clientes. No primeiro comunicado, publicado na noite de quinta, a empresa disse que a invasão podia ter partido do laptop comprometido de um engenheiro de DevOps, a área que cuida da infraestrutura dos sistemas. Por esse laptop, um invasor teria chegado a um sistema interno e enviado ordens de saque não autorizadas.

Na sexta-feira à tarde, um segundo comunicado ampliou o quadro: a investigação encontrou "outros pontos de invasão". A empresa diz não ter achado indício de vazamento das chaves privadas, os códigos que dão controle sobre as carteiras, e promete publicar novas conclusões técnicas em cerca de 48 horas. Segundo a Elliptic, outra empresa de rastreamento, Teng afirmou que o ataque não foi obra de uma só pessoa e que usou um mecanismo de autodestruição, que apagou as ferramentas e os rastros enquanto rodava.

A preparação começou pelo menos 36 horas antes do roubo, segundo a TRM, com dinheiro vindo do Tornado Cash, serviço usado para embaralhar a origem de criptomoedas. O maior golpe ocorreu na rede Ethereum, às 17h20 de Brasília: uma única transação, com 50 autorizações assinadas, entregou a carteira chamada Binance 14 a um programa controlado pelo invasor. Cerca de três minutos depois, a carteira foi esvaziada. Saíram 167.464 ether e 63 outros tipos de token, segundo a TRM e a Elliptic.

O que foi congelado

Segundo a Binance, cerca de US$ 3 bilhões, aproximadamente R$ 16,3 bilhões, já estão congelados. Isso só foi possível porque boa parte do roubo estava em stablecoins, moedas digitais atreladas ao dólar cujas emissoras conseguem bloquear o saldo de uma carteira. Cerca de uma hora depois do início do ataque, a Tether, emissora do USDT, e a Circle, emissora do USDC, bloquearam as principais carteiras que tinham recebido o dinheiro.

Bitcoin e ether não têm emissor e não podem ser bloqueados dessa forma. Segundo a Elliptic, em atualização publicada na madrugada deste sábado, 31 de outubro, o invasor ainda controla cerca de US$ 3,21 bilhões, aproximadamente R$ 17,4 bilhões, em ativos que nenhum emissor consegue bloquear, entre eles 18.270 bitcoins.

Congelar também não significa devolver. "O congelamento impede que o dinheiro se mova, e a recuperação vem por meio de um processo legal", disse à CNBC Ari Redbord, da TRM.

Quem paga

"A Binance absorverá o impacto financeiro desses fundos roubados, não nossos usuários", afirmam Yi He e Teng no comunicado de sexta. O dinheiro virá do SAFU, o fundo que a corretora mantém para ressarcir clientes, e do caixa da empresa.

A Binance diz ter separado mais de US$ 6,34 bilhões, cerca de R$ 34,4 bilhões, dos quais US$ 5 bilhões, cerca de R$ 27,1 bilhões, já estão nos mesmos ativos que foram roubados. Isso cobre cerca de 80% do prejuízo, e o restante está sendo comprado no mercado e em operações de balcão. Sean Farrell, analista da Fundstrat, disse à CNBC que o ataque, por ora, não parece criar "um risco relevante de solvência" para a corretora, e que o principal sinal será a rapidez da volta dos saques.

No comunicado de sexta, publicado às 16h33 de Brasília, a equipe técnica estabeleceu a meta de começar a reabri-los em cerca de 34 horas, o que aponta para a madrugada de domingo, 1º de novembro. A retomada será em etapas e depende da conclusão das checagens de segurança. Até segunda-feira, 2 de novembro, a empresa também promete a prova de reservas, relatório que mostra se ela tem ativos para cobrir o saldo dos clientes.

Quem é apontado como autor

A TRM atribui o ataque ao TraderTraitor, que descreve como a unidade de hackers de elite da Coreia do Norte, e diz fazer esse julgamento "com alta confiança". A Chainalysis, outra empresa do setor, também aponta o grupo, com base no fato de o dinheiro da Binance ter se misturado, nas blockchains, ao de um roubo sofrido em setembro pela corretora Bitget, também atribuído a norte-coreanos. A Elliptic considera a autoria provável, mas não certa.

Nenhum governo confirmou a atribuição. O FBI disse estar ciente do incidente e em contato com parceiros públicos e privados, e a Binance afirma apenas que trabalha com as autoridades para identificar os criminosos. Perguntado se a Coreia do Norte estava envolvida, o presidente Donald Trump respondeu: "Estamos analisando isso", segundo a Associated Press. O país nega as acusações, segundo a Reuters.

O recorde anterior também tem a Coreia do Norte como suspeita, nesse caso apontada pelo FBI: em fevereiro de 2025, a corretora Bybit perdeu US$ 1,5 bilhão, cerca de R$ 8,1 bilhões. Em todo o ano de 2025, foram roubados US$ 2,9 bilhões em criptomoedas, cerca de R$ 15,7 bilhões, em quase 150 ataques, segundo a TRM, citada pela Reuters. A Elliptic considera "quase certo" que este seja o maior roubo individual de qualquer tipo na história.

O ataque também pesou nas cotações. O bitcoin chegou na sexta-feira a US$ 76.368, cerca de R$ 414 mil, a mínima em seis semanas, segundo a Reuters, num dia em que as bolsas americanas também caíram.

A situação no Brasil

No Brasil, onde a Binance responde por mais de 50% da negociação de criptomoedas, segundo a Exame, a BBrasil, empresa que opera a corretora no país, também suspendeu os saques de ativos virtuais. O comunicado da empresa diz que "os fundos de seus clientes permanecem seguros". Segundo a BBrasil, os ativos ficam em carteiras frias, desconectadas da internet, e seguem as regras de segregação do Banco Central, que os separam do patrimônio da corretora. Os demais serviços continuam funcionando.

O caso ocorre enquanto a Binance busca a autorização do Banco Central para operar como prestadora de serviços de ativos virtuais, etapa necessária para continuar no país, segundo a Exame. A BBrasil não deu data para reabrir os saques e não informou se seguirá o cronograma da operação global, segundo o InfoMoney.