O iFood Benefícios, braço do iFood que vende vale-refeição, vale-alimentação e outros benefícios às empresas, assinou nesta terça-feira, 20 de outubro de 2026, acordo para comprar a Caju, startup de benefícios corporativos, despesas e gestão de pessoas. As empresas não divulgaram o valor. Segundo o Brazil Journal, a Caju foi avaliada em cerca de R$ 1 bilhão.
O iFood, controlado pelo grupo holandês de investimentos Prosus, é o maior aplicativo de entrega de comida do país. Reúne mais de 500 mil restaurantes e mercados parceiros, mais de 600 mil entregadores e 65 milhões de consumidores em mais de 2.000 cidades. A compra faz parte do plano de investir R$ 24 bilhões até março de 2027, anunciado pela empresa em setembro.
O tamanho de cada uma
O iFood Benefícios tem 65 mil empresas clientes e 1,7 milhão de usuários, e seu cartão é aceito em mais de 11 milhões de estabelecimentos, além das lojas do aplicativo. A Caju, criada em 2020 por Eduardo Del Giglio e Renan Mendes, tem mais de 70 mil empresas clientes, 1,3 milhão de usuários e mais de 700 funcionários, e seu cartão é aceito em mais de 12 milhões de estabelecimentos.
Somadas, as carteiras chegam a 135 mil empresas e 3 milhões de usuários, antes de descontar os clientes que as duas têm em comum. Cada uma movimenta cerca de R$ 1,3 bilhão por mês, segundo o Brazil Journal.
A Caju começou com um cartão de bandeira Visa que reúne vários benefícios num só saldo e depois passou a oferecer ferramentas de RH, controle de despesas, reembolsos e adiantamentos. Para o iFood, é uma forma de chegar às áreas de recursos humanos das empresas clientes sem desenvolver essas ferramentas do zero. Desde a fundação, a startup levantou US$ 50 milhões, cerca de R$ 252 milhões, com fundos como Canary, Valor Capital Group, Caravela Capital e K1 Investment Management, segundo o Brazil Journal.
Segundo Arthur Freitas, presidente-executivo do iFood Benefícios, a operação teve resultado operacional positivo em 2025 e em 2026, e a Caju deve dar lucro ainda este ano. Del Giglio, presidente-executivo da Caju, continuará na empresa combinada, mas a estrutura de comando ainda não foi definida.
Um mercado dominado por quatro empresas
O mercado de vale-refeição e vale-alimentação movimenta cerca de R$ 150 bilhões por ano no Brasil e atende mais de 22 milhões de trabalhadores em cerca de 470 mil empresas inscritas no PAT, o Programa de Alimentação do Trabalhador, que dá incentivo fiscal às empresas que pagam esses benefícios.
Quatro empresas tradicionais dominam o setor. Segundo dados reunidos pelo Cade, a Alelo, controlada por Bradesco e Banco do Brasil, lidera com cerca de 30% do mercado, e com Pluxee (a antiga Sodexo), Ticket e VR chega a cerca de 80%. No ano passado, o iFood chegou a negociar a compra da Alelo, num negócio que poderia chegar a R$ 5,5 bilhões, segundo o Brazil Journal. Segundo o NeoFeed, a negociação não avançou, e o iFood retomou as conversas com a Caju, com a qual já tinha conversado antes.
A disputa também tem novos concorrentes. O C6 Bank comprou a Alymente, empresa de benefícios corporativos, no começo de setembro, e o BTG Pactual também passou a atuar no setor. A Flash, outra startup que disputa o mesmo cliente, acaba de captar R$ 150 milhões.
As novas regras do PAT
A compra acontece no meio de uma mudança de regras. Até pouco tempo atrás, as grandes operadoras trabalhavam com redes fechadas: o cartão só era aceito nos estabelecimentos credenciados pela própria operadora, que também definia a taxa cobrada de restaurantes e supermercados. Caju, iFood Benefícios e Flash entraram no mercado com cartões de bandeiras tradicionais, aceitos numa rede maior.
O Decreto 12.712, de 11 de novembro de 2025, mudou o funcionamento do PAT. Desde fevereiro de 2026, a taxa de desconto cobrada dos estabelecimentos está limitada a 3,6%, e o dinheiro das vendas tem de chegar a eles em até 15 dias. Desde maio de 2026, as operadoras com mais de 500 mil trabalhadores tiveram de abrir seus arranjos de pagamento, o que permite que outras instituições também emitam esses cartões e credenciem estabelecimentos. A partir de novembro de 2026 vale a interoperabilidade plena, em que as redes credenciadas são compartilhadas e qualquer cartão do PAT passa a ser aceito em qualquer maquininha.
"Quando o custo da transação cai, o estabelecimento opera com mais margem e pode repassar esse ganho em alimentação mais barata para o trabalhador e em mais investimento no negócio", afirmou Freitas no comunicado da compra. Segundo o comunicado, as operadoras tradicionais continuam contestando as novas regras.
Como as mudanças vieram por decreto, podem ser alteradas por um próximo governo sem passar pelo Congresso. "Acreditamos que, independentemente do governo, não haverá retrocessos no ambiente regulatório", disse Del Giglio ao Brazil Journal.
Os próximos passos
O acordo foi comunicado ao Cade, o órgão de defesa da concorrência, no dia do anúncio e, depois do aval, ainda precisa ser aprovado pelo Banco Central. Até a conclusão, iFood Benefícios e Caju continuam operando de forma independente, sem mudança para clientes, funcionários e estabelecimentos parceiros.
Fontes: iFood, comunicado · Planalto, Decreto 12.712/2025 · Brazil Journal · NeoFeed · Bloomberg Línea · InfoMoney
