A Jio Platforms, maior operadora de telecomunicações da Índia e braço digital do conglomerado Reliance, estreou na bolsa nesta quarta-feira, 28 de outubro de 2026, e fechou o primeiro pregão a 1.417,50 rúpias, cerca de R$ 81, na National Stock Exchange (NSE), a principal bolsa do país. Foi uma alta de 26,7% sobre o preço de oferta, de 1.119 rúpias, cerca de R$ 64. A empresa terminou o dia valendo 13,05 trilhões de rúpias, cerca de US$ 137 bilhões, ou R$ 743 bilhões.
Com esse valor, passou o HDFC Bank e a Bharti Airtel, sua principal concorrente, avaliada em 12,16 trilhões de rúpias, cerca de R$ 694 bilhões, naquele fechamento. Tornou-se a segunda empresa mais valiosa do país, atrás apenas da controladora, a Reliance Industries, que valia 15,67 trilhões de rúpias, cerca de R$ 895 bilhões. Entre as empresas de telecomunicações do mundo, ficou em quinto lugar em valor de mercado, segundo o Business Standard.
Lançada em 2016 por Mukesh Ambani, presidente da Reliance e, segundo a Forbes, a pessoa mais rica da Ásia, a Jio derrubou as tarifas de celular, provocou a consolidação do setor e impulsionou a adoção quase universal do telefone móvel na Índia, segundo o Mint. Em setembro, tinha 542,4 milhões de clientes, e só a China Mobile tem mais assinantes num único país, segundo a Reuters. Além da telefonia móvel, vende banda larga, nuvem e outros serviços digitais. No ano fiscal encerrado em março de 2026, faturou 1,47 trilhão de rúpias, cerca de R$ 84 bilhões, e lucrou 300,5 bilhões de rúpias, cerca de R$ 17 bilhões.
A Reliance, fundada pelo pai de Mukesh, Dhirubhai Ambani, cresceu no petróleo e na petroquímica. Segundo a Reuters, a abertura de capital da Jio, a primeira do conglomerado em duas décadas, faz parte do plano de Mukesh de transformar o grupo numa empresa também de produtos de consumo e tecnologia. A Jio é comandada por Akash Ambani, filho mais velho de Mukesh e diretor-gerente da empresa. "Nos nossos primeiros 10 anos, democratizamos os dados, levando centenas de milhões de pessoas para a vida digital. Nos próximos 10, queremos democratizar toda tecnologia capaz de transformar a vida dos indianos: IA, nuvem, dispositivos conectados, conectividade até pelo espaço e serviços digitais ainda nem imaginados", disse ele na cerimônia de estreia, segundo o Mint.
A oferta
O IPO foi feito só com ações novas: 270 milhões de papéis a 1.119 rúpias, que renderam 302,13 bilhões de rúpias, cerca de US$ 3,2 bilhões, ou R$ 17,3 bilhões. Nenhum acionista vendeu sua participação.
A procura foi 22,19 vezes maior que a quantidade de ações à venda, com mais de 13,8 milhões de pedidos. Os investidores institucionais pediram 70,55 vezes a parte reservada a eles, e os de varejo, 2,72 vezes. Contando os investidores-âncora, os grandes compradores que se comprometem antes da abertura da oferta, como BlackRock, Capital Group e o fundo soberano GIC, de Cingapura, as ordens somaram US$ 78 bilhões, cerca de R$ 423 bilhões, segundo a CNBC.
A maior parte do dinheiro foi para reduzir dívida. Segundo a empresa, 275 bilhões de rúpias, cerca de R$ 15,7 bilhões, serviram para pagar antecipadamente empréstimos externos da Reliance Jio Infocomm, sua principal subsidiária. O restante vai para despesas gerais. Em 30 de junho, a dívida total da Jio era de 613,7 bilhões de rúpias, cerca de R$ 35 bilhões, segundo o TechCrunch.
O recorde
O recorde anterior de IPO na Índia, em rúpias, era do Hyundai Motor India, a filial indiana da montadora coreana, que levantou 279 bilhões de rúpias, cerca de R$ 15,9 bilhões ao câmbio atual, em outubro de 2024. A oferta da Jio veio num ano em que a Índia é o mercado mais movimentado do mundo em número de IPOs, com 246 estreias até 28 de outubro, segundo a Reuters.
O desempenho também foi diferente do que se viu nas maiores ofertas anteriores. Segundo o Mint, nenhum dos cinco maiores IPOs indianos antes do da Jio tinha subido mais de 2% no primeiro dia, e três fecharam abaixo do preço de oferta. Em 28 de outubro, todos os cinco negociavam abaixo desse preço, segundo o The National.
Os sócios
A Reliance continua com cerca de dois terços da Jio. Os maiores sócios minoritários são a Meta, com quase 10%, e o Google, com 7,7%, segundo dados da LSEG citados pela CNBC. Os dois entraram em 2020, quando a Meta, ainda Facebook, investiu US$ 5,7 bilhões, cerca de R$ 30,9 bilhões, e o Google, US$ 4,5 bilhões, cerca de R$ 24,4 bilhões, segundo o TechCrunch. General Atlantic, Silver Lake e Vista Equity Partners também compraram participações naquele ano, quando a Jio foi avaliada em até 4,91 trilhões de rúpias, cerca de R$ 280 bilhões ao câmbio atual.
A disputa com o grupo Tata
A estreia também mudou o ranking dos conglomerados indianos. Somadas, as empresas listadas do grupo Ambani passaram a valer 30,25 trilhões de rúpias, cerca de R$ 1,7 trilhão, contra 25,40 trilhões, cerca de R$ 1,45 trilhão, do grupo Tata, dono da TCS, da Tata Steel e da Titan, que ocupava o primeiro lugar, segundo o Business Standard.
A própria Reliance, porém, caiu 3,19% no dia da estreia, para 1.158 rúpias. Analistas citados pelo Mint atribuíram a queda ao chamado desconto de holding: enquanto a subsidiária não tem ação própria, o valor dela está todo no preço da controladora, e, quando passa a ser negociada em separado, o mercado costuma aplicar um desconto sobre a controladora.
O primeiro balanço
Na sexta-feira, 30 de outubro, depois do fechamento do mercado, a empresa divulgou o primeiro balanço como companhia aberta. No trimestre de julho a setembro, lucrou 83,9 bilhões de rúpias, cerca de R$ 4,8 bilhões, alta de 13,7% sobre o mesmo período de 2025, e teve receita de operações de 404,75 bilhões de rúpias, cerca de R$ 23,1 bilhões, alta de 11,4%. Ganhou 9,1 milhões de clientes líquidos, e a receita média mensal por cliente subiu 3,5%, para 218,8 rúpias, cerca de R$ 12,50.
Corretoras citadas pela Reuters apontam como riscos a concorrência, os investimentos pesados e mudanças nas regras de telecomunicações, como as de espectro e licenças. Os preços-alvo divulgados no dia da estreia pela Nomura (1.340 rúpias), pela Motilal Oswal (1.350) e pela Elara Capital (1.367) ficaram abaixo do fechamento do primeiro pregão.
Fontes: Reuters, via Khaleej Times · CNBC · Business Standard · Mint · TechCrunch · The National · The Tribune, balanço
