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A Kalshi, bolsa americana de mercados de previsão cofundada pela brasileira Luana Lopes Lara, anunciou nesta quinta-feira, 29 de outubro de 2026, uma rodada Série G de US$ 1 bilhão, cerca de R$ 5,4 bilhões, que a avalia em US$ 40 bilhões, cerca de R$ 217 bilhões. A operação foi coliderada pela Sequoia Capital e pela Wellington Management, com outros dez investidores, segundo a empresa.

O valor quase dobrou em pouco mais de cinco meses. Em maio, numa rodada também de US$ 1 bilhão liderada pela Coatue, a Kalshi foi avaliada em US$ 22 bilhões, cerca de R$ 119 bilhões. Em outubro de 2025, valia US$ 5 bilhões, cerca de R$ 27 bilhões, segundo a CNBC.

O que é um mercado de previsão

Num mercado de previsão, os usuários negociam contratos de "sim" ou "não" sobre eventos futuros, como o resultado de uma eleição, de um jogo ou de uma decisão sobre juros. O preço funciona como a probabilidade que os participantes atribuem ao evento: um contrato de "sim" a 70 centavos de dólar indica cerca de 70% de chance de ele acontecer. Quem acerta recebe US$ 1, e quem erra perde o que pagou. A Kalshi aproxima compradores e vendedores e cobra taxas sobre as transações, sem ficar do outro lado da operação. "A Kalshi não ganha dinheiro quando as pessoas perdem", disse Luana à Folha de S.Paulo. Críticos afirmam que esses produtos se parecem com apostas e podem estimular o vício, segundo a Reuters.

Com sede em Nova York, a empresa opera sob a supervisão da CFTC, a comissão que regula os mercados de derivativos nos Estados Unidos e que a autorizou a funcionar em 2020. Em 2023, a própria comissão rejeitou seus contratos sobre eleições, e a Kalshi a processou e ganhou a causa em setembro de 2024.

Segundo o anúncio da rodada, a Kalshi movimenta, no ritmo atual, mais de US$ 1 trilhão por ano, cerca de R$ 5,4 trilhões, somando mercados de previsão, commodities, criptomoedas e futuros perpétuos, derivativos sem data de vencimento. Tem mais de 30 milhões de contas abertas e concentra mais de 75% do volume dos mercados de previsão. Fora dos esportes, diz ter receita anualizada acima de US$ 1 bilhão. O volume cresceu com a Copa do Mundo de 2026 e a temporada da NFL, puxado por contratos combinados, parecidos com as apostas múltiplas das casas esportivas, segundo a CNBC.

A principal rival é a Polymarket, plataforma baseada em criptomoedas que recebeu, em outubro de 2025, um investimento de até US$ 2 bilhões, cerca de R$ 11 bilhões, da Intercontinental Exchange (ICE), dona da Bolsa de Nova York. No último ano, a Kalshi ultrapassou a Polymarket em participação de mercado, segundo dados da plataforma Dune Analytics citados pela Reuters, enquanto a concorrente enfrentou atrasos no lançamento de sua operação americana e uma investigação da CFTC.

Para onde vai o dinheiro

A Kalshi quer deixar de ser só um mercado de previsão e se tornar uma plataforma de negociação de vários ativos, o que a põe em disputa com a CME, bolsa de derivativos de Chicago, e com a própria ICE, segundo a Reuters. Os recursos vão para contratos com alavancagem sobre eventos, para futuros perpétuos de ações individuais, depois dos que a Kalshi já oferece sobre criptomoedas, índices de ações e metais, e para mercados ligados ao preço da capacidade de computação.

"Esse financiamento acelera nossa visão de longo prazo: construir a bolsa financeira da próxima geração", escreveu a empresa no anúncio. Em junho, o presidente-executivo e cofundador, Tarek Mansour, disse à CNBC que a companhia considera abrir capital, mas não antes de 2027.

A disputa com os estados

Na véspera do anúncio, quarta-feira, 28 de outubro, o procurador-geral de Utah, Derek Brown, apresentou 14 acusações criminais contra a Kalshi, contra Mansour e contra Luana, que é a diretora de operações da empresa. Treze delas são crimes graves, que podem levar à prisão, e a maior parte é por promover jogos de azar online, proibidos no estado. Segundo a KUER, rádio pública de Utah, um investigador da procuradoria abriu em setembro uma conta na Kalshi com um endereço de IP do estado e fez apostas em eventos esportivos, mesmo depois de um juiz federal decidir, em 4 de agosto, que as leis de jogo de Utah se aplicam à empresa.

"O jogo é ilegal em Utah, seja para quem faz a aposta, administra o jogo ou o promove. Chamar isso de 'mercado de previsão' não muda o que é, e ter registro federal não coloca uma empresa acima da lei", disse Brown. A Kalshi chamou as acusações de "um exagero absurdo" e afirmou que "Utah está claramente fazendo política".

A briga é sobre quem regula esse negócio. A Kalshi sustenta que seus contratos são assunto exclusivo do governo federal e estão fora das leis estaduais de jogo. A CFTC defende a mesma posição e, dias antes das acusações, processou Utah para barrar a ação civil do estado contra a empresa. Os litígios já se espalham por cerca de 20 estados. Dois tribunais federais de apelação decidiram, em agosto e setembro, que os estados podem regular contratos esportivos, e um terceiro decidiu o contrário, o que deve levar o caso à Suprema Corte. Utah também não é o primeiro a ir para a área criminal: o Arizona acusou a Kalshi neste ano, um juiz federal bloqueou o caso, e o estado tenta retomá-lo, segundo a KUER.

A brasileira

Luana Lopes Lara nasceu em Belo Horizonte em 1996, estudou na Escola do Teatro Bolshoi em Joinville e dançou profissionalmente por uma temporada na Áustria antes de trocar o balé pelo curso de ciência da computação no MIT. Lá conheceu Mansour, com quem fundou a Kalshi em 2018. Em dezembro de 2025, quando a empresa passou a valer US$ 11 bilhões, cerca de R$ 60 bilhões, a Forbes a apontou como a mulher mais jovem do mundo a construir uma fortuna bilionária sem herança. Na lista brasileira da revista, divulgada em agosto de 2026 e ainda com a avaliação de US$ 22 bilhões, ela aparece com R$ 13,4 bilhões e uma participação estimada de 12% na empresa.

O bloqueio no Brasil

O Brasil foi o primeiro passo da Kalshi fora dos Estados Unidos. Em março de 2026, a empresa anunciou uma parceria com a XP, a maior corretora do país, para oferecer a parte dos clientes contratos ligados à inflação e aos juros brasileiros. Em 24 de abril, o governo publicou a Resolução 5.298, do Conselho Monetário Nacional (CMN), que veda a oferta e a negociação no país de derivativos ligados a esportes, jogos online e eventos de natureza política, eleitoral, social, cultural ou de entretenimento. No mesmo dia, anunciou o bloqueio de 27 sites, entre eles os da Kalshi e da Polymarket, que, segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, ofereciam "apostas ilegais".

A norma deixa espaço para contratos ligados a referenciais econômico-financeiros, como índices de preços e taxas de juros, e encarrega a CVM de regulamentar o tema. Segundo a Bloomberg, a parceria com a XP, que não passa pelo site bloqueado, poderia seguir por essa exceção. "O Brasil é muito importante para mim, visto que sou brasileira", disse Luana ao Valor Econômico no fim de 2025, antes da proibição. Em agosto de 2026, a Kalshi mantinha em seu mercado internacional, segundo a Época Negócios, contratos sobre a eleição brasileira, incluindo o vencedor da Presidência, o resultado do primeiro turno e a composição do Senado.