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A conta cabe num guardanapo:

Uma venda de R$ 100 em uma empresa com 15% de margem líquida:

→ Preço: R$ 100
→ Custos totais da operação: R$ 85
→ Sobra (Lucro): R$ 15

O efeito do desconto de 10%:

→ Novo preço: R$ 90
→ Custos: perto de R$ 84. Impostos, taxas de cartão e comissões caem um pouco junto com o preço. Mas a estrutura operacional continua praticamente a mesma.
→ Sobra (Lucro): R$ 6

O preço caiu 10%. O lucro caiu 60%.

Todo mundo enxerga os R$ 10. Quase ninguém enxerga que eles eram mais da metade do que ia sobrar. Essa é a ilusão de ótica.

E aqui vem a defesa clássica: “Mas o desconto se paga. Eu vendo mais volume” ou “O cliente fica comigo mais tempo”.

Às vezes é verdade. E existe um jeito de saber:

Na venda única, dar 10% de desconto significa que os R$ 15 de lucro viram R$ 6. Então “vender mais pra compensar” significa vender 2,5x mais, com a mesma equipe, o mesmo estoque, o mesmo caixa financiando tudo. Se o desconto não multiplica a venda assim, ele não se pagou.

Na venda recorrente, o desconto consome o lucro do ciclo de vida do cliente (LTV). 20% de desconto nos 3 primeiros meses de um cliente que fica 3 anos pode custar pouco no contrato inteiro. Essa conta pode fechar. Agora, 20% para sempre, sem prazo definido, é a mesma margem indo embora todo mês.

Todo desconto tem dois tamanhos

O que o cliente vê, calculado sobre o preço. E o que a empresa paga, calculado sobre o lucro.

O primeiro é sempre pequeno: 5% a 20%. O segundo costuma ser muito maior: um terço, metade, dois terços do que ia sobrar.

E a maioria das negociações acontece inteira olhando só pro primeiro.

Por que ninguém vê o desconto real

Porque ele não aparece em lugar nenhum: não está na proposta, não está no pedido, não está na comissão. O desconto real é invisível no exato momento em que é decidido.

Na prática, ninguém na negociação está olhando pra ele:

O dono compara o desconto com o faturamento. “10% de R$ 100 mil é R$ 10 mil, sobrevivo.” Só que os R$ 10 mil não saíram dos R$ 100 mil, saíram dos R$ 15 mil que iam sobrar.

O vendedor não paga a conta. Na maioria das vezes, a comissão dele é sobre o faturamento: uma venda de R$ 90 comissiona quase igual a uma de R$ 100. Pra ele, o desconto “é de graça”. Ele negocia com um dinheiro que não é dele. É com a sua margem.

O cliente pressiona até onde deixam. E ele está certo em tentar: defender o próprio bolso é o papel dele na mesa.

Cada um está cumprindo o seu papel.

O vendedor quer o fechamento. O cliente quer pagar menos. E o dono, o único que poderia defender a margem, está olhando pro faturamento.

As 3 regras para não entregar margem de graça

A solução não é proibir desconto. É dar à margem o defensor que ela não tem.

Regra 1: Saiba quanto o desconto realmente custa.

O primeiro passo é olhar para os números do seu negócio, a frio, e entender quanto cada venda gera de lucro. Em muitos casos, a margem varia por produto, por serviço, por canal: tem venda que aguenta desconto e venda que já nasce no limite. É esse mapa que diz até onde dá pra ir em cada situação, não a insistência do cliente. E com ele na mão, o passo seguinte é natural: transformar o limite em tabela para os vendedores, montada olhando para o lucro, não para o preço. Porque no calor da negociação, com a venda quase fechando, ninguém para pra analisar. Pensa em não perder. A análise tem que estar pronta antes.

Regra 2: Desconto se troca, não se dá.

Toda concessão volta com algo que devolva margem ou caixa: à vista, volume maior, prazo menor, contrato mais longo, indicação. “Consigo melhorar se você fechar hoje à vista” é negociação. “Consigo melhorar” é doação. E na venda recorrente, a troca inclui prazo: desconto de entrada tem data para acabar, escrita em contrato, não “depois a gente revê”.

Regra 3: A comissão aponta para o mesmo número que você olha.

A comissão clássica, sobre faturamento, cria um vendedor que ganha quando você perde. A correção é atrelar o incentivo à métrica que paga a empresa, e ela varia por negócio: comissão escalonada (venda a preço cheio paga mais comissão, desconto derruba o percentual), comissão sobre margem, comissão atrelada à permanência (no recorrente, onde o lucro mora na retenção). O modelo importa menos que a regra: se o vendedor ganha numa venda em que a empresa perde, o problema não é o vendedor. É a métrica.

Não importa o que a sua empresa vende: desconto sem conta não é flexibilidade. É a margem indo embora pela porta da frente, com recibo.

O teste das últimas 10 vendas

Pegue as últimas 10 vendas fechadas e o desconto de cada uma. Depois faça a conta que ninguém faz: quanto cada desconto consumiu do lucro daquela venda. O desconto real, aquele que nunca apareceu na proposta.

A soma desses números é quanto a sua empresa pagou, nos últimos meses, pra aprender que 10% nunca foi 10%.