A Oraimo, braço de acessórios inteligentes do conglomerado chinês Transsion Holdings, começou a operar no Brasil. A meta anunciada é ambiciosa: 20% do mercado brasileiro de acessórios inteligentes em um intervalo de cinco a dez anos.
"20% do market share do mercado brasileiro de acessórios inteligentes num intervalo de cinco a dez anos", afirmou Walter Neto, líder da operação local, ao definir o objetivo.
O que a marca vende
Criada em 2014, a Oraimo tem cerca de 50 produtos distribuídos em quatro categorias: áudio, vestíveis, energia e cuidados pessoais. Na prática, são fones de ouvido, smartwatches, cabos, power banks e barbeadores.
No Brasil, os smartwatches chegam entre R$ 190 e R$ 320, faixa que define o posicionamento sem que a empresa precise explicá-lo.
A entrada é só digital. Os canais iniciais são Mercado Livre, Shopee e TikTok Shop, com e-commerce próprio previsto ainda para este ano. A empresa negocia com distribuidores para chegar ao varejo físico em 2026. O time local começa com cerca de dez profissionais.
De quem ela foge, e com quem ela vai brigar
A Oraimo declarou que vai focar em custo-benefício nos segmentos de entrada e intermediário, evitando confronto direto com Apple, Samsung, Xiaomi e Garmin.
Isso descreve de quem ela se afasta. Não descreve quem está no caminho dela.
Num smartwatch de R$ 190, o concorrente não é o Apple Watch. É a i2GO, marca que se apresenta como líder de acessórios para smartphone no Brasil, faturou mais de R$ 65 milhões em 2024, está em mais de 20 mil pontos de venda e foi comprada pela Vivo em março de 2025. Ou seja, passou a ter a distribuição de uma operadora de telecomunicações por trás.
É também a Multi, antiga Multilaser, fabricante brasileira de eletrônicos em operação desde 1987, com linha própria de fones e acessórios.
E é, principalmente, a enxurrada de marcas sem nome importadas da China que já domina Mercado Livre e Shopee. Exatamente os canais que a Oraimo escolheu para estrear.
A faixa de preço que ela mirou não está vaga. Está lotada.
Quem está por trás
A Transsion é menos conhecida no Brasil do que o tamanho dela justifica.
Fundada em 2006, a companhia fez uma escolha incomum para uma empresa chinesa: evitou deliberadamente o próprio mercado doméstico e foi construir posição onde a concorrência era menor. Domina hoje cerca de 50% do mercado africano de celulares, com as marcas Infinix, Tecno e Itel.
Listada na Bolsa de Xangai desde 2019, vale 64 bilhões de yuans, cerca de US$ 9,5 bilhões. Em 2025, faturou US$ 9,4 bilhões e teve lucro líquido de US$ 373 milhões.
A Oraimo, sozinha, já está em mais de 60 países e diz ter 200 milhões de usuários.
Não é a primeira vez no país
A Transsion já opera no Brasil desde 2021, com a marca de smartphones Infinix, distribuída em parceria com a Positivo Tecnologia.
A chegada da Oraimo amplia a aposta e tem função de plataforma: a empresa trata o Brasil como base para expandir primeiro pela América Latina e depois pelas Américas.
O tamanho da promessa
Vale dimensionar o que significa a meta de 20%.
A empresa fala em um mercado endereçável de 50 milhões de consumidores no Brasil. Não há, porém, levantamento independente que dimensione em reais o mercado brasileiro de acessórios inteligentes, o que torna a meta difícil de verificar. Como referência de ordem de grandeza: a i2GO, tratada como líder do segmento, faturou R$ 65 milhões em 2024.
Chegar a um quinto desse mercado vendendo online, com uma equipe de dez pessoas, é declaração de intenção, não projeção.
O histórico da controladora, porém, desaconselha descartar. Foi exatamente assim, entrando por baixo em mercado que os grandes não priorizavam, que a Transsion chegou a metade do continente africano.
O que não foi divulgado
A empresa não informou o valor investido na operação brasileira, a meta de faturamento no país nem se pretende produzir ou montar localmente.
Fontes: NeoFeed · Economic News Brasil · Telefônica/Vivo
