O Grupo Ri Happy, dono das redes de lojas de brinquedos Ri Happy e PBKids, pediu recuperação extrajudicial à Justiça de São Paulo no domingo, 18 de outubro de 2026, para renegociar R$ 827,4 milhões em dívidas. O pedido reúne seis empresas do grupo e foi confirmado pela companhia no dia seguinte.
Nesta sexta-feira, 23 de outubro, a juíza Tainá Maria Leonardo de Oliveira, da 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, autorizou o processamento do pedido. Com a decisão, as ações e execuções ligadas às dívidas incluídas no plano ficam suspensas por 180 dias.
Segundo o pedido apresentado à Justiça, citado pela Forbes, o grupo tem 204 lojas próprias e 88 franquias, mais de 2.600 funcionários diretos e receita líquida média de R$ 1,2 bilhão por ano. A dívida que entrou no plano equivale a cerca de dois terços desse faturamento. De acordo com a empresa, as lojas e o site seguem funcionando normalmente, e as equipes estão concentradas na Black Friday e no Natal.
Como funciona a recuperação extrajudicial
Prevista na Lei de Falências, a recuperação extrajudicial permite que a empresa negocie um plano diretamente com parte dos credores e depois peça à Justiça que o homologue. Ao contrário da recuperação judicial, ela pode se limitar a algumas dívidas: tributos e créditos com garantia fiduciária ficam de fora, e dívidas trabalhistas só entram com negociação coletiva com o sindicato da categoria. Se o plano for homologado com a adesão de credores que somem mais da metade dos créditos de cada tipo incluído, ele passa a valer também para quem não assinou.
A lei permite abrir o pedido com a adesão de um terço desses créditos, desde que a empresa alcance a maioria em até 90 dias contados do pedido, prazo que não pode ser prorrogado. Se não conseguir, a empresa pode converter o processo em recuperação judicial.
No caso da Ri Happy, o plano abrange só dívidas quirografárias, aquelas sem garantia, com bancos, fornecedores e shopping centers. Credores que somam R$ 308,8 milhões já aderiram, e a juíza considerou cumprido o mínimo de um terço. O plano ainda não traz as condições definitivas de pagamento, que, segundo a decisão, podem ser fixadas durante as negociações.
A juíza também negou a consolidação substancial, pedido que trataria as seis empresas como um único patrimônio. Assim, cada uma terá de comprovar, sozinha, a adesão da maioria dos próprios credores. Depois disso, será publicado um edital, e os credores contrários terão 30 dias para contestar o plano antes de a Justiça decidir se o homologa. Para acompanhar o processo e conferir as adesões, foi nomeada a administradora judicial Cabezón.
Por que a dívida cresceu
No pedido, o grupo atribui a crise aos efeitos da pandemia, que fechou lojas e shoppings, aos juros altos, à queda do consumo e à concorrência de plataformas estrangeiras de comércio eletrônico, como Shopee e AliExpress. "A crise do Grupo Ri Happy se insere em um movimento mais amplo de deterioração das condições do varejo, que vem atingindo diversos participantes do setor", diz o documento, obtido pelo g1.
A empresa já tinha passado por uma renegociação em 2023, quando alongou por até cinco anos cerca de R$ 292 milhões em dívidas com bancos como Banco do Brasil, Santander e BV. Na época, o controlador colocou R$ 75 milhões no caixa, segundo o NeoFeed. A renegociação foi feita com base numa projeção de geração de caixa que não se confirmou, e o pagamento dessa dívida passou a custar cerca de R$ 70 milhões por ano, valor que o grupo considera incompatível com seu plano de negócios.
A troca de dono
O pedido veio 48 dias depois de a BluSun Capital Partners anunciar, em 31 de agosto, a compra de 100% do grupo, por valor não divulgado. A BluSun foi constituída em São Paulo em 21 de agosto, dez dias antes do anúncio, segundo o NeoFeed, e a Ri Happy é a primeira aquisição divulgada com a marca.
Com a venda, voltou ao comando Héctor Núñez, fundador da BluSun, que dirigiu a Ri Happy de 2012 a 2020. Antes de chegar à rede, ele presidiu o Walmart Brasil e, depois de sair, comandou a Novonor, antiga Odebrecht. Núñez substituiu Thiago Rebello, presidente-executivo desde 2024.
A Ri Happy foi fundada em 1988, em São Paulo, pelo pediatra Ricardo Sayon, pela mulher dele, Juanita Sayon, e pelo administrador Roberto Saba. Em 2012, o fundo americano Carlyle comprou o controle, e meses depois a rede comprou a PBKids, então sua principal concorrente. Desde 2021, a empresa era administrada pela gestora brasileira SPX Capital, que assumiu os fundos de private equity do Carlyle no país.
Em comunicado, o grupo disse que a nova gestão está adotando medidas para melhorar o caixa, controlar custos e reorganizar a estrutura de capital, que fez ajustes nas equipes corporativas e que prepara uma mudança de sede. "Essas medidas visam organizar a renegociação de dívidas e adequar a estrutura financeira às necessidades operacionais, criando as condições para dar continuidade ao plano de transformação", afirmou a empresa em nota ao NeoFeed.
A Ri Happy é a segunda grande empresa de brinquedos a recorrer à Justiça em 2026. Em maio, a fabricante Estrela, dona de marcas como Banco Imobiliário e Autorama, pediu recuperação judicial para renegociar R$ 109 milhões em dívidas.
Fontes: TJSP, decisão · Lei 11.101/2005 · Migalhas · g1 · Forbes · NeoFeed · NeoFeed, venda para a BluSun · InfoMoney
