A Tractian, empresa fundada em São Paulo que vende sensores e software de inteligência artificial para monitorar máquinas industriais, anunciou nesta quinta-feira, 22 de outubro de 2026, uma rodada Série D de US$ 130 milhões, cerca de R$ 655 milhões. A operação avaliou a companhia em US$ 1,4 bilhão, cerca de R$ 7 bilhões, e a colocou no grupo dos unicórnios.
A Tractian foi criada em 2019 por Igor Marinelli, seu presidente-executivo, Gabriel Lameirinhas e Leonardo Vieira. Em 2024, transferiu a sede operacional e financeira para Atlanta, nos Estados Unidos, e hoje tem escritórios em São Paulo, em Monterrey, no México, e na Polônia, com mais de 700 funcionários. Segundo Marinelli, a receita anualizada está perto de US$ 100 milhões, cerca de R$ 504 milhões, e metade dela vem de fora do Brasil, principalmente dos Estados Unidos. Em 2024, era de US$ 40 milhões, cerca de R$ 200 milhões, segundo a Bloomberg Línea.
É o segundo unicórnio brasileiro do ano. O primeiro foi a Enter, que usa IA para conduzir processos jurídicos de grandes empresas e foi avaliada em US$ 1,2 bilhão, cerca de R$ 6 bilhões, em maio. Antes dela, a última startup brasileira a passar de US$ 1 bilhão tinha sido a QI Tech, em 2024. Com a nova avaliação, a Tractian passa a ser a startup de IA mais valiosa da América Latina, segundo o Pipeline.
Quem investiu
A rodada foi liderada pela Sapphire Ventures, gestora americana de venture capital com mais de US$ 10 bilhões sob gestão, que já tinha liderado a Série C. A coliderança ficou com a Catalyst, braço da gestora britânica M&G que investe em empresas de tecnologia já em fase de crescimento. Também participaram N47, General Catalyst, Bosch Ventures, 53 Stations, Monashees, Endeavor Catalyst, Norte Ventures e Y Combinator.
A Série C, de US$ 120 milhões, cerca de R$ 605 milhões, foi anunciada no fim de 2024 e avaliou a empresa em US$ 720 milhões, cerca de R$ 3,6 bilhões, segundo a Bloomberg Línea. Em menos de dois anos, o valor da Tractian quase dobrou.
"Quando lideramos a Série C da Tractian, acreditávamos que combinar hardware, dados e IA daria à empresa uma vantagem real. Desde então, nossa tese só se fortaleceu", disse Anders Ranum, sócio da Sapphire, no comunicado da rodada.
Como funciona
A Tractian instala nas máquinas sensores que captam vibração, ultrassom e outros sinais, em equipamentos como compressores, bombas, resfriadores industriais, paletizadoras e sistemas de backup. Um sistema de agentes de IA, treinado no que a empresa diz ser uma das maiores bases de dados de falhas industriais do mundo, cruza essas informações, aponta a causa de um possível defeito e recomenda o que o técnico deve fazer antes que a produção pare.
É o que a indústria chama de manutenção preditiva, em que o conserto é guiado pelos dados da própria máquina, em vez de esperar a quebra ou trocar peças por calendário. No comunicado da rodada, a Tractian cita um estudo da Siemens, de janeiro de 2026, segundo o qual as paradas não planejadas custam às 500 maiores empresas industriais do mundo cerca de 11% da receita anual, ou US$ 1,4 trilhão por ano, cerca de R$ 7 trilhões.
A ideia vem da história do próprio fundador. "Cresci vendo meu pai trabalhar como técnico de manutenção numa fábrica de papel e vi como eram atrasadas as ferramentas das pessoas que mantinham aquelas máquinas funcionando", disse Marinelli no comunicado.
A empresa começou com um único sensor, de vibração, e hoje fabrica os próprios equipamentos e tem mais de 100 patentes registradas nos Estados Unidos, segundo o Pipeline. A pesquisa e a fabricação dos sensores ficam num centro na zona sul de São Paulo, que recebeu investimento de R$ 55 milhões, anunciado em 2025.
"Começamos como um band-aid de máquinas, de predição de falhas mecânicas. E hoje fazemos o pacote de proteção de ativos em todos os ângulos do equipamento: mecânico, elétrico e operacional", disse Marinelli ao Pipeline. Sobre o novo status da empresa, brincou: "O nosso unicórnio vem com chaminé no lugar do chifre".
Os clientes
Mais de 2.000 instalações industriais no mundo usam a tecnologia da Tractian, segundo a empresa. Entre os clientes estão a farmacêutica Eli Lilly, a distribuidora de medicamentos McKesson, a Whirlpool, fábricas de engarrafamento da Coca-Cola, a fabricante de motores Cummins e a Embraer, além de operadores de data centers e de infraestrutura governamental que a empresa não identifica. No Brasil, a carteira inclui Suzano, Dexco, EMS e Thyssenkrupp.
O destino do dinheiro
Os US$ 130 milhões vão para pesquisa e desenvolvimento nos próximos cinco anos, segundo Marinelli. Parte será usada para treinar modelos de linguagem e comprar processadores da Nvidia. A meta é levar a plataforma a fabricantes, data centers, empresas de defesa e concessionárias de energia e saneamento, e crescer nos Estados Unidos e na Europa, onde a Tractian abriu neste ano o escritório na Polônia. Em janeiro de 2027, a empresa começa a operar em Cingapura, de onde vai atender a região da Ásia e do Pacífico.
Antes da rodada, em agosto, a Tractian tinha tomado R$ 120 milhões emprestados do BNDES para desenvolver robôs assistentes de inspeção de equipamentos industriais. Segundo Marinelli, a empresa deve começar a gerar caixa em 2027.
Fontes: Tractian, comunicado (PR Newswire) · Pipeline · Bloomberg Línea · Startups · Época Negócios
