A Vivo, maior operadora do país, lançou na segunda-feira, 26 de outubro de 2026, o Vivo Satélite, serviço que conecta o celular diretamente aos satélites da Starlink, a empresa de internet por satélite da SpaceX, de Elon Musk, quando o aparelho fica sem sinal das torres. O cliente não precisa de antena, de contrato novo nem de aplicativo extra. A oferta alcança cerca de 50 milhões de clientes, entre pessoas físicas e empresas. A Vivo diz ser a primeira operadora a oferecer esse tipo de conexão em todo o território nacional.
A Vivo é a marca da Telefônica Brasil, que fechou o segundo trimestre de 2026 com 105 milhões de clientes, receita líquida de R$ 15,757 bilhões e lucro de R$ 1,573 bilhão. Sua rede cobre 98% da população, segundo a empresa, mas o que falta é território: rodovias, áreas rurais e regiões isoladas, onde construir torres costuma ser economicamente inviável.
"Todas as operadoras do Brasil têm 21% do território coberto se somada à infraestrutura de redes móveis terrestres", disse ao NeoFeed o diretor de operações da Vivo, Alex Salgado. "Agora, com esse complemento de cobertura via satélite, chegamos a 100% do território com cobertura outdoor."
Como funciona
A tecnologia é conhecida como direct-to-device (D2D): o satélite de órbita baixa funciona como uma torre de celular em órbita, usando a frequência de 2,6 GHz da própria Vivo. Quando o aparelho fica fora da cobertura terrestre, a conexão é automática, e a tela passa a mostrar a rede "Vivo Starlink".
A contrapartida é a necessidade de ver o céu. O serviço não foi desenhado para funcionar em ambientes fechados, e o teto de um carro, copas densas de árvores ou prédios interrompem o sinal. A distância também limita o desempenho, já que os satélites ficam a cerca de 550 quilômetros da Terra. Por isso, a oferta se restringe a alguns serviços:
Mensagens e áudios: WhatsApp, RCS, SMS, iMessage e Google Mensagens.
Ligações por aplicativo: chamadas de voz pelo WhatsApp.
Mapas: Google Maps e Apple Maps.
Atendimento: o aplicativo da Vivo.
Videochamadas e navegação livre em sites ficam de fora. A Vivo não divulgou velocidade nem franquia de dados; segundo O Globo, o tráfego de textos, áudios e localização não desconta da franquia mensal do cliente.
"A rede satelital é para uma comunicação essencial nessas áreas mais remotas, onde as pessoas costumavam ficar sem sinal móvel", disse Salgado ao Times Brasil. A conexão de alta velocidade depende da próxima geração de satélites da Starlink, ainda sem cronograma. "No futuro, o serviço oferecerá conectividade em alta velocidade, por meio da próxima geração da nossa tecnologia", afirmou Stephanie Bednarek, vice-presidente de vendas da SpaceX.
Quem pode usar e quanto custa
O serviço é gratuito por um período promocional de 12 meses para pessoas físicas e de três meses para clientes empresariais, que depois precisam contratá-lo. A Vivo não informou o preço depois da gratuidade.
Entram clientes de planos elegíveis de pós-pago, Controle e Lite, além de pré-pagos com recargas acima de R$ 30. Máquinas conectadas à rede, o chamado M2M, terão pacotes específicos.
Para usar, é preciso ter um celular 4G ou 5G que esteja na lista de modelos da Vivo, com o sistema atualizado, chip compatível ou eSIM e o roaming de dados ligado. Aparelhos mais recentes com iOS e Android receberam atualizações que habilitam os aplicativos automaticamente, e modelos antigos podem exigir ajustes manuais, segundo o Times Brasil. Cerca de 7 milhões de pessoas usaram a conexão nos testes da semana anterior ao lançamento.
A Vivo não abre metas para o serviço. "Existe uma expectativa em trazer mais assinantes para nossa base de clientes", disse Salgado ao NeoFeed. No mercado corporativo, o serviço pode abrir novas vendas a empresas de agronegócio, logística e infraestrutura, que já compram conectividade da operadora, segundo o Times Brasil.
A autorização da Anatel
O serviço funciona dentro de um ambiente regulatório experimental, o sandbox em que a Anatel libera uma tecnologia nova com regras provisórias enquanto não define as permanentes. A autorização da Telefônica Brasil vale até 22 de abril de 2029 e permite a exploração comercial do serviço, segundo O Globo.
O acordo com a Starlink não prevê exclusividade nem data para terminar, e os termos comerciais são confidenciais. Salgado definiu a Vivo como "a única com tecnologia de satélite da Starlink", o que vale para o momento: outras operadoras podem buscar a mesma parceria.
A concorrência
Três dias antes do lançamento, na sexta-feira, 23 de outubro, as operadoras regionais Brisanet, Unifique e Iez! Telecom assinaram um acordo com a americana AST SpaceMobile, rival da Starlink, com sede no Texas e ações na Nasdaq, para oferecer D2D em todo o país. Pelos fatos relevantes de Brisanet e Unifique, elas cedem as frequências de 700 MHz que detêm e investem nos gateways, as estações em solo que ligam as redes móveis à constelação de satélites.
A promessa é mais ampla que a do Vivo Satélite: chamadas de voz, dados em banda larga e streaming de vídeo em celulares comuns. Mas os detalhes definitivos do contrato ainda estão em negociação, o negócio depende de licenças da Anatel e não há data de início. A própria AST ainda constrói sua rede e prevê ter cerca de 45 satélites em órbita até o início de 2027.
Claro e TIM, as outras grandes operadoras, receberam aval da Anatel para testar a conexão direta com a AST, mas não anunciaram oferta comercial.
A parceira da Vivo também é uma concorrente em potencial. A Starlink já disputa a banda larga fixa no Brasil, onde tinha cerca de 937 mil acessos em agosto, segundo dados da Anatel citados pelo NeoFeed, o décimo lugar entre os provedores, em um mercado com a Claro em primeiro e a Vivo em segundo. Nos Estados Unidos, a SpaceX comprou no início de outubro frequências por cerca de US$ 8 bilhões, aproximadamente R$ 43 bilhões, e sinalizou a intenção de atuar como operadora móvel, anúncio que derrubou as ações do setor de telecomunicações.
No Brasil, por enquanto, a Starlink depende das frequências e da licença de uma operadora para chegar ao celular. Em relatório do início de outubro, o UBS BB estimou que o país seja um dos três maiores mercados da empresa no mundo, mas disse não ter encontrado evidências de que ela tenha decidido replicar aqui o modelo americano.
