O Walmart anunciou nesta quarta-feira, 21 de outubro de 2026, um conjunto de ferramentas para que agentes de inteligência artificial façam compras em nome dos clientes nos sites do Walmart e do Sam's Club, seu clube de compras por assinatura, nos Estados Unidos. São três peças: perfis próprios para os agentes dentro da conta do cliente, uma conexão técnica feita para que eles comprem com mais rapidez e um conjunto de regras que todo agente terá de seguir.
O anúncio foi feito pelo presidente-executivo da empresa, John Furner, no Masters of Scale Summit, evento de negócios em San Francisco, segundo o TechCrunch.
O Walmart é a maior varejista do mundo. A empresa faturou US$ 713,2 bilhões no ano fiscal encerrado em janeiro de 2026, cerca de R$ 3,6 trilhões, e diz receber por semana cerca de 280 milhões de clientes em mais de 10.900 lojas e nos sites de 19 países. As vendas online crescem bem mais rápido que o total: no trimestre de maio a julho de 2026, subiram 23%, enquanto a receita da empresa aumentou 5,9%.
Como funciona hoje
Hoje, quando um cliente usa um agente de IA para comprar no Walmart, o agente entra no site com o login do próprio cliente. Assim, as compras feitas pela pessoa e pelo agente aparecem juntas, sem distinção. O Walmart já vende por meio de integrações com assistentes como o Muse, da Meta, o ChatGPT, da OpenAI, e o Gemini, do Google, além do Sparky, seu próprio assistente de compras.
Os perfis de agente
A primeira novidade são os Agent Profiles, que começam a funcionar no próximo mês. Cada agente autorizado pelo cliente ganha um perfil próprio dentro da conta, e as compras dele aparecem separadas das demais.
O cliente escolhe como as compras serão aprovadas: uma a uma ou dentro de um limite de gasto definido por ele, por exemplo de US$ 50, US$ 100 ou US$ 200, cerca de R$ 252, R$ 504 ou R$ 1.008. A empresa compara o sistema a um cartão de crédito adicional, em que o titular dá a outra pessoa uma forma de pagar, define um limite e acompanha o uso. O perfil pode ser desligado ou apagado a qualquer momento.
O perfil é criado automaticamente na primeira vez que o cliente usa um agente para comprar pela nova conexão do Walmart, e o cliente o vincula à conta entrando com seu login do Walmart. Segundo o TechCrunch, o recurso vale para qualquer cliente com conta no site, sem exigir a assinatura Walmart+.
A conexão para agentes
A segunda peça é o Walmart Agent Gateway. Hoje, os agentes compram no site do Walmart pelo navegador, seguindo os passos feitos para pessoas, o que, segundo a empresa, é lento e sujeito a erro, e os agentes podem travar no meio do caminho. O Gateway permite que eles se conectem direto aos sistemas da varejista por meio do MCP (Model Context Protocol), padrão aberto criado pela Anthropic para ligar agentes de IA a serviços externos.
A conexão começa com uma versão de teste para empresas e desenvolvedores. O Walmart não informou quais agentes já foram aprovados.
O Gateway também permite que o agente compre os itens de sempre do cliente sem receber o histórico de compras dele. "Se um cliente costuma comprar pão de fermentação natural ou uma marca específica de leite, o Walmart vai ajudar o agente a encontrar esses itens habituais para o cliente sem compartilhar o histórico de compras mais amplo do cliente", diz a empresa.
As regras para os agentes
O Walmart também publicou termos que os agentes precisam cumprir para comprar em nome de um cliente:
Aprovação: por padrão, o cliente precisa aprovar as compras do agente, e o Walmart pode pedir aprovações extras mesmo dentro do limite de gasto.
Intenção: o agente não pode realizar ações além do que o cliente pretende.
Pagamento: o agente não recebe os dados do cartão do cliente e não pode incluir nem trocar formas de pagamento.
Dados: o agente só acessa as informações necessárias para a tarefa e autorizadas pelo cliente.
Devolução: a política de trocas do Walmart vale normalmente, inclusive quando o agente não age como deveria.
Bloqueio: agentes que descumprirem as regras serão bloqueados no site.
A empresa também diz que o preço não muda conforme quem compra. "Nós precificamos produtos, não pessoas, então os preços que um agente de IA vê são os mesmos que uma pessoa veria no Walmart.com", afirma o comunicado. Segundo a Axios, a empresa vem sendo criticada nesse ponto: Lindsay Owens, diretora-executiva do centro de estudos Groundwork Collaborative, acusou o Walmart de usar IA para variar preços conforme o comportamento e a demanda dos consumidores. A varejista chamou as acusações de enganosas e imprecisas.
A posição da Amazon
O Walmart vai no sentido contrário ao da Amazon, maior varejista online dos Estados Unidos e sua principal concorrente. Em 20 de setembro, 12 dias depois do lançamento do Muse, a Amazon bloqueou o agente da Meta na própria loja. Quem tentava comprar pelo Muse passou a receber a mensagem: "O acesso contínuo por um agente de IA não autorizado viola as Condições de Uso da Amazon, com as quais nossos clientes concordaram".
Segundo a Axios, a Amazon disse que não autorizou o Muse a acessar contas de clientes, coletar dados ou processar transações, e citou preocupações com a segurança e a experiência do cliente. Em novembro de 2025, a empresa já tinha processado a Perplexity, acusando a startup de usar o agente do navegador Comet para fazer compras de forma oculta na sua loja, e também tomou medidas para restringir agentes do Google e da OpenAI, segundo a AFP. A Amazon tem os próprios recursos de compra com IA, como o Alexa for Shopping e o Buy for Me.
Para Neil Saunders, analista da consultoria GlobalData Retail, a Amazon tenta manter seu "ecossistema fechado" e provavelmente teme que os agentes de fora prejudiquem seu negócio de anúncios. "A Amazon também aposta que suas próprias ferramentas de IA vão ajudar os clientes que querem usar essa tecnologia", disse à Axios. Mas "a conta pode muito bem mudar se agentes de terceiros passarem a ter um papel muito maior na descoberta de produtos e nas compras".
Um hábito ainda pequeno
Por enquanto, as compras feitas por agentes são uma fatia mínima do varejo, segundo a Axios. Num levantamento da Coveo, empresa de software de busca para lojas online, feito com 4 mil consumidores dos Estados Unidos e do Reino Unido, só 16% disseram se sentir à vontade para deixar um assistente de IA comprar por eles.
As ferramentas foram anunciadas para os sites dos Estados Unidos. No Brasil, as lojas Sam's Club pertencem ao Carrefour, que comprou o Grupo Big, antiga operação brasileira do Walmart, em 2022.
