A Warhound, empresa americana de tecnologia de defesa com sede no Texas, foi lançada nesta quinta-feira, 22 de outubro de 2026, com US$ 200 milhões, cerca de R$ 1 bilhão, levantados numa rodada seed. O plano é clonar e editar geneticamente cães de trabalho para as Forças Armadas, as polícias e as equipes de resgate dos Estados Unidos. A rodada avaliou a empresa em US$ 1,2 bilhão, cerca de R$ 6 bilhões, segundo a Forbes e o TechCrunch.
A Warhound nasceu de uma ideia de dois empresários americanos de tecnologia. Ben Lamm é presidente-executivo da Colossal Biosciences, empresa que criou em 2021 com o geneticista George Church, de Harvard, para tentar trazer de volta espécies extintas, como o mamute-lanoso e o dodô, com técnicas de edição genética. Em 2025, a Colossal clonou e editou um lobo-cinzento para criar um animal geneticamente parecido com o extinto lobo-terrível. Palmer Luckey criou a Oculus, de óculos de realidade virtual, vendida ao Facebook em 2014, e fundou em 2017 a Anduril, fabricante de drones e sistemas militares autônomos avaliada em US$ 61 bilhões, cerca de R$ 307 bilhões, em maio, segundo a Forbes.
Os dois têm papéis diferentes no negócio. Lamm tem participação na Warhound e está no conselho, e a Colossal também é sócia e licencia sua tecnologia para a nova empresa. Luckey é parceiro do projeto, mas não tem participação nem cadeira no conselho, segundo a Forbes e o TechCrunch. O presidente-executivo é David Spirk, ex-fuzileiro naval que foi o primeiro diretor de dados do Departamento de Defesa e, depois, conselheiro sênior da Palantir.
Quem investiu
A rodada foi liderada por Shaun Maguire, sócio da Sequoia Capital, segundo a Forbes. Também investiram a In-Q-Tel, fundo de investimento financiado pela CIA e por outras agências de inteligência americanas, ARK Invest, Franklin Templeton, 8VC, Lux Capital, Breyer Capital, Builders VC e CAZ Investments, entre outros. "Palmer, Ben e a equipe da Warhound são excepcionais. A Sequoia tem orgulho de apoiá-los", disse Maguire no comunicado.
O problema que a empresa quer resolver
O programa de cães militares do Departamento de Defesa tem mais de 2.200 equipes formadas por um cão e seu condutor, usadas para detectar explosivos e fazer patrulhas. Segundo a Warhound, mais de 80% desses cães são comprados na Europa, e menos da metade é considerada apta para o serviço depois de um processo de compra e treinamento que leva cerca de três anos. Na prática, os Estados Unidos precisam comprar e treinar cerca de 200 cães para ter 100 em operação.
Cada cão pode custar US$ 9 mil, cerca de R$ 45 mil, em criadores americanos, ou US$ 5,5 mil, cerca de R$ 28 mil, no exterior, segundo dados de 2020 da Bloomberg citados pela Forbes, e o treinamento de cada um pode passar de US$ 60 mil, cerca de R$ 300 mil. Segundo a Forbes, pelo menos parte dos cães reprovados é sacrificada.
Como vai funcionar
A Warhound já guardou num biobanco células dos melhores cães de trabalho em atividade, principalmente das raças pastor-belga malinois e pastor-alemão. A ideia é clonar esses animais e editar os embriões. A clonagem ficará com a Viagen, empresa de clonagem de animais que a Colossal comprou em novembro de 2025.
A primeira etapa é eliminar predisposições genéticas a doenças que encerram a carreira dos cães, como displasia de quadril, perda de visão, câncer e atrofia muscular. Depois, a empresa quer melhorar características como velocidade, agilidade, faro e longevidade. "O padrão é que nenhum cão entre em serviço carregando um marcador genético conhecido por causar uma condição comum que encerra a carreira", disse Lamm à revista Scientific American. "A partir daí, estamos trabalhando em edições voltadas especificamente para mais longevidade e saúde, e também para fatores de desempenho."
A Anduril vai fornecer software e equipamentos para os cães e seus condutores, como coletes, proteção para olhos e ouvidos e acessórios ligados ao Eagle Eye, seu capacete de realidade mista. Segundo Lamm, a tecnologia fica "por cima do cão, não dentro dele", sem implantes. "O melhor amigo do homem merece a melhor tecnologia do homem", disse Luckey no comunicado.
A empresa diz trabalhar com a American Humane Society, organização americana de proteção animal, que vai certificar os programas de treinamento e ajudar na adoção dos cães aposentados.
As dúvidas dos especialistas
Especialistas ouvidos pela Scientific American dizem que o plano é possível do ponto de vista científico, mas difícil de executar. "Exige que muitos cães passem por procedimentos invasivos e sejam sacrificados para produzir um único filhote clonado", disse Lisa Moses, veterinária e bioeticista da Universidade Harvard.
Ben Novak, cientista-chefe da Revive & Restore, organização que trabalha com clonagem de animais silvestres para conservação, disse que algumas características dependem de "centenas ou milhares de mutações em vários genes". Robert Lanza, pioneiro das pesquisas de clonagem, afirmou que os objetivos são alcançáveis, mas que "é altamente improvável que isso possa ser feito sem muitas, muitas falhas e defeitos". À Forbes, Joshua Morton, ex-integrante dos Navy SEALs e fundador da Canine Tactical, disse que a clonagem pode acumular problemas genéticos de uma geração para outra.
Os próximos passos
Segundo Lamm, o primeiro lote de cães está prestes a ser clonado, e os nascimentos são esperados para o início de 2027. A meta é que os animais entrem em serviço em cerca de dois anos. A Warhound ainda não definiu quanto vai cobrar e espera vender para o Departamento de Defesa, polícias e equipes de emergência. Lamm disse ao TechCrunch que já apresentou o projeto a vários órgãos do governo, mas nenhum contrato foi anunciado até agora.
