BOM DIA
Dois donos leem a mesma notícia no mesmo dia.
Um vira a página.
O outro ganha dinheiro a partir dela.
A notícia era a mesma.
A diferença estava em quem lia.
Nesta edição:
Pior do que perder uma oportunidade é nem saber que ela existiu
A rede de sorveterias que tem mais lojas do que o McDonald's e não ganha dinheiro vendendo sorvete
Dois carimbos “de graça” fizeram clientes concluir um programa de fidelidade 2,4 vezes mais
Como calcular o CAC do jeito certo e não confundir mídia barata com aquisição eficiente
INSIGHT DA SEMANA
Pior do que perder uma oportunidade é nem saber que ela existiu.
Quando você perde algo que enxergou, pelo menos fica sabendo.
Dói, dá raiva e, com o tempo, vira aprendizado.
Mas o que você nunca percebeu passa em silêncio.
Nenhum alerta dispara, nenhum relatório registra e tudo continua exatamente como estava.
Isso acontece porque uma oportunidade não está apenas no evento. Ela surge da interpretação que alguém faz daquele evento.
A lógica é simples: evento + interpretação = oportunidade.
O evento é o que aconteceu: uma regra mudou, um fornecedor quebrou, uma tecnologia ficou mais barata ou um comportamento do cliente começou a se repetir.
Mas nenhum desses fatos traz consigo uma conclusão sobre o que fazer. Essa conclusão precisa ser construída.
Por isso, o mesmo evento pode ser irrelevante para um dono e decisivo para outro.
Os dois recebem a mesma informação, mas não extraem dela as mesmas implicações.
E ninguém interpreta um fato apenas com o que está diante dos olhos.
Toda leitura usa referências acumuladas antes daquele momento: conceitos aprendidos, experiências anteriores, mercados observados, erros cometidos e relações que a pessoa aprendeu a fazer.
Esse conjunto de referências é o que chamamos de repertório.
É ele que permite enxergar novas possibilidades a partir de mudanças que, para outros, parecem apenas fatos isolados.
E a boa notícia é que, tirando o que só o tempo e a experiência trazem, quase tudo o que amplia seu repertório está sob o seu controle: o que você estuda, acompanha e observa.
Ele não garante que a leitura esteja certa. Mas amplia o número de leituras que você consegue fazer.
E essa é a parte mais importante.
Quando falta repertório, você não necessariamente enxerga uma oportunidade e decide deixá-la passar. Muitas vezes, ela nem chama sua atenção.
Você lê a notícia, abre o e-mail, escuta a conversa e segue o dia. Não houve dúvida, análise ou decisão. Para você, não havia nada ali.
É por isso que quem espera um assunto virar necessidade para começar a entendê-lo já começa atrasado.
Não apenas porque pode levar tempo para dominá-lo, mas porque pode passar meses sem perceber que ele já começou a importar.
Na prática, construir repertório significa aprender antes da necessidade: estudar problemas antes que exijam resposta, acompanhar tecnologias antes que cheguem ao mercado e observar como outros setores resolvem questões parecidas.
Só que, justamente por acontecer antes da necessidade, nada disso costuma virar prioridade.
E, para quem toca um negócio, tudo o que não produz resultado imediato parece recurso parado.
Estoque parado custa dinheiro. Capital parado custa dinheiro. Máquina parada custa dinheiro.
A lição se repete tantas vezes que vira reflexo: investir tempo no que ainda não é necessário parece apenas deixar mais um recurso sem produzir.
Mas repertório é a exceção: é um dos poucos ativos que continuam rendendo mesmo quando parecem parados.
Ele pode passar meses ou anos sem gerar um resultado visível. Ainda assim, continua ampliando o que você consegue compreender, relacionar e considerar quando alguma coisa muda.
A maior parte do seu tempo continua pertencendo ao presente: caixa, cliente e operação. Mas uma parte precisa ir para aquilo que ainda não virou necessidade.
Não para tentar adivinhar o que vai acontecer, mas para ampliar o que você será capaz de perceber quando acontecer.
Porque o maior risco de começar a aprender quando já é tarde não é apenas demorar para reagir.
É passar anos diante de coisas que poderiam mudar o seu negócio sem que elas chegassem a existir para você.
ESTUDO DE CASO
A rede de sorveterias que tem mais lojas do que o McDonald's e não ganha dinheiro vendendo sorvete.
Em 1997, Zhang Hongchao tinha 21 anos, 3.000 yuans emprestados pela avó e uma barraca de bebidas geladas em Zhengzhou, na China.
Quase três décadas depois, a empresa que nasceu ali tem mais de 60 mil lojas no mundo, superando McDonald's e Starbucks em número de unidades.
Em abril de 2026, a Mixue chegou ao Brasil com uma loja de 71 metros quadrados em um shopping da Avenida Paulista. Casquinha a R$ 3, sundae a R$ 10 e filas na porta desde a inauguração.
Mas a fila é a parte menos interessante da história.
A Mixue parece uma rede de sorveterias, mas construiu seu império ganhando dinheiro em outro lugar.
O negócio escondido por trás da sorveteria.
No mundo das franquias, a lógica costuma ser simples: o franqueado abre a loja, vende para o consumidor e repassa à matriz uma porcentagem do faturamento.
A Mixue abriu mão justamente dessa cobrança.
Ela zerou os royalties sobre as vendas.
O franqueado fica com toda a receita e não precisa repassar uma porcentagem de cada venda.
Mas se a Mixue não opera quase nenhuma loja e também não participa do faturamento dos franqueados, como ela ganha dinheiro?
A resposta vem antes de o primeiro cliente entrar.
Para abrir e operar uma unidade, o franqueado precisa comprar da matriz os ingredientes, as embalagens, as máquinas e praticamente tudo o que utiliza.
Mas a grande sacada não é apenas obrigá-lo a comprar, mas também fabricar aquilo que ele compra.
A Mixue produz o pó do sorvete, os xaropes, os copos, as embalagens e até parte dos equipamentos usados nas lojas.
O lucro, portanto, acontece antes da venda final.
Cada unidade nova não é apenas uma sorveteria exibindo sua marca: é um novo comprador recorrente para a fábrica.
A verticalização que faz o modelo funcionar.
Em qualquer outro sistema, obrigar o franqueado a comprar tudo de um único fornecedor poderia transformá-lo em refém.
A Mixue reduz esse conflito usando escala e produção própria para oferecer preços que o lojista dificilmente conseguiria sozinho.
A empresa controla fábricas, centros logísticos e cerca de 26 armazéns na China. Com isso, determinados insumos chegam a custar entre 10% e 20% menos do que os oferecidos pelos concorrentes.
A exclusividade deixa de ser apenas uma imposição e passa a ser uma vantagem econômica.
O franqueado fica com o resultado da loja, compra insumos baratos e consegue sustentar preços agressivos. A Mixue, por sua vez, garante demanda contínua para a própria indústria.
Uma fábrica que abre dezenas de lojas por dia.
É essa combinação que ajuda a explicar a velocidade da expansão.
Como os royalties foram zerados, a franquia se torna mais atraente para os operadores.
E cada novo franqueado que entra não apenas abre uma unidade: aumenta a capacidade de distribuição da fábrica sem que a Mixue precise operar a loja.
O aluguel, a equipe e o risco local ficam com o lojista. A matriz se concentra em produzir e abastecer uma rede cada vez maior.
Em 2025, a Mixue chegou a abrir cerca de 37 lojas por dia.
Quanto mais a rede cresce, mais sua indústria vende.
O balanço entrega o disfarce.
Os números mostram onde está o verdadeiro negócio.
Em 2025, a Mixue faturou 33,56 bilhões de yuans, cerca de US$ 4,9 bilhões, e lucrou 5,93 bilhões de yuans, aproximadamente US$ 850 milhões.
Cerca de 97,6% da receita veio da venda de produtos e equipamentos para os próprios franqueados.
A Mixue é, na prática, uma indústria atacadista gigantesca disfarçada de sorveteria.
Para o consumidor, ela vende casquinhas.
Para a rede, vende tudo o que uma sorveteria precisa para existir.
O McDonald’s faz uma versão da mesma mágica.
Esse truque de faturar nos bastidores não é exclusivo da Mixue.
Boa parte do lucro do McDonald's não vem da venda do hambúrguer. Vem de ser dono do imóvel e cobrar aluguel do próprio franqueado.
Na Mixue, o sorvete cria demanda para a fábrica. No McDonald’s, o restaurante cria demanda para o imóvel.
Dois negócios diferentes, a mesma lógica: o produto da vitrine atrai, mas o modelo captura valor nos bastidores.
A lição: o seu modelo de negócio não pode ser apenas uma herança.
Depois de chegar até aqui, seria fácil concluir que a lição da Mixue é fabricar os próprios insumos.
Não é.
A verticalização foi a ferramenta que ela usou. A sacada mais profunda foi perceber que não precisava ganhar dinheiro do mesmo jeito que todas as outras redes de franquia.
E esse é um ponto que quase toda empresa deixa passar.
A maioria nunca escolheu de verdade como ganhar dinheiro. Apenas herdou a lógica dominante do setor.
Franquia cobra royalties. Loja vive da margem. Prestador cobra pelo serviço.
Como todos fazem assim, o modelo parece uma característica natural do mercado, quase tão inevitável quanto o próprio produto.
A Mixue enxergou que não era.
Em vez de participar diretamente da receita de cada loja, a Mixue deslocou a captura de valor para uma etapa anterior da cadeia.
Abriu mão dos royalties e passou a ganhar abastecendo milhares de unidades.
O produto continuou o mesmo. O cliente também. O que mudou foi o desenho econômico por trás da operação.
É por isso que conhecer apenas o produto, o consumidor e os concorrentes nunca é suficiente.
É preciso entender a cadeia inteira: quem produz, quem distribui, quem financia, quem controla o acesso e em quais pontos o dinheiro se acumula.
Sem essa visão, a empresa pode passar anos otimizando o modelo que recebeu pronto, sem perceber que existe uma forma melhor de se posicionar dentro da mesma operação.
A pergunta não é apenas como vender mais ou reduzir custos.
É: por que sua empresa ganha dinheiro exatamente dessa forma?
E, talvez mais importante: isso foi realmente uma escolha ou apenas a maneira como o setor sempre funcionou?
RADAR DO OPERADOR
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DADO
Dois carimbos “de graça” fizeram clientes concluir um programa de fidelidade 2,4 vezes mais.
Esse foi o resultado encontrado por pesquisadores em um experimento realizado com clientes de um lava-rápido.
Eles queriam entender se a sensação de já ter avançado em direção a uma recompensa mudava o comportamento dos consumidores ou não.
Para isso, distribuíram dois tipos de cartão de fidelidade aos clientes.
No primeiro, o cliente precisava completar oito lavagens para ganhar uma grátis. No segundo, o cliente precisava completar dez, mas o cartão já era entregue com dois carimbos preenchidos. Na prática, os dois grupos ainda precisavam fazer exatamente oito lavagens.
E foi justamente no cartão que já mostrava algum progresso que apareceu o melhor resultado.
→ No cartão tradicional, 34% dos clientes chegaram à recompensa.
→ No cartão com dois carimbos iniciais, esse número subiu para 82%.
Os pesquisadores chamam esse comportamento de endowed progress effect: quando uma pessoa tem a sensação de já ter feito algum progresso, ela passa a encarar a meta como algo que já está em andamento, e não como uma jornada que ainda precisa começar.
Por que importa: o cliente se engaja mais quando percebe que já avançou. Isso vale para cartão de fidelidade, meta de compras, programa de pontos ou qualquer jornada com recompensa no final. Em vez de apresentar o objetivo como algo que começa do zero, vale mostrar o progresso que já existe. A recompensa não mudou. O que mudou foi a distância percebida até ela. Link do estudo.
INDICADOR
Como calcular o CAC do jeito certo e não confundir mídia barata com aquisição eficiente.
CAC é a sigla para custo de aquisição de clientes. Ele mostra quanto a empresa gasta, em média, para conquistar cada cliente novo.
Esse número ajuda a entender se crescer está ficando mais eficiente ou mais caro. Também permite comparar canais, campanhas, regiões ou equipes comerciais para descobrir onde o investimento traz clientes por um custo menor.
A conta parece simples: Gastos com marketing e vendas ÷ novos clientes conquistados
Mas é justamente aí que o erro aparece.
Muitas empresas colocam na conta apenas o investimento em anúncios. Só que mídia não conquista o cliente sozinha.
O cálculo precisa incluir todo o custo da estrutura de marketing e vendas usada para conquistar clientes: salários, comissões, ferramentas, eventos, deslocamentos e qualquer outra despesa ligada à aquisição.
Imagine uma empresa que gastou R$ 10 mil em anúncios e conquistou 50 clientes. Olhando apenas para a mídia, o CAC parece ser de R$ 200. Mas, se a estrutura de marketing e vendas custou outros R$ 15 mil, o custo real foi de R$ 500 por cliente.
O erro é confundir custo de mídia com custo de aquisição. O jeito certo é somar tudo o que foi necessário para conquistar novos clientes e dividir pela quantidade de clientes conquistados.
Só existe uma ressalva importante: essa conta direta funciona melhor quando a venda acontece rápido. Se o cliente leva dois ou três meses para fechar, os gastos de janeiro, por exemplo, podem gerar clientes apenas em março. Nesse caso, dividir o gasto de janeiro pelas vendas de janeiro mistura períodos diferentes. Nessas situações, eu gosto de calcular o CAC por cohort, acompanhando quantos novos clientes uma determinada leva de investimento gerou, mesmo que eles fechem depois.
Por que importa: sem um CAC bem calculado, a empresa pode achar que um canal está funcionando melhor do que realmente está. Pode aumentar investimento numa campanha cara, cortar um canal eficiente ou comparar equipes com números distorcidos. O CAC não serve apenas para medir custo. Serve para decidir onde vale colocar o próximo real de crescimento.
Só existe uma ressalva: essa conta direta funciona melhor quando a venda acontece rápido. Se o cliente leva dois ou três meses para fechar, os gastos de janeiro, por exemplo, podem gerar clientes apenas em março. Nesse caso, dividir o gasto de janeiro pelas vendas de janeiro mistura períodos diferentes. Nessas situações, eu gosto de calcular o CAC por cohort, acompanhando quantos novos clientes uma determinada leva de investimento gerou, mesmo que eles fechem depois.
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SOBRE NÓS
Prazer, eu sou o Ythalo, fundador e editor do The Operator.

Há mais de 10 anos construo empresas de tecnologia. Sou sócio da MAR Ventures, venture builder por trás de empresas como a Remessa Online, vendida ao EBANX por mais de R$ 1 bilhão. E também sou cofundador e CEO da Vobi, investida pela Y Combinator, a mesma aceleradora por trás de Airbnb, Stripe e OpenAI, criadora do ChatGPT.
Ao longo dessa jornada, uma coisa sempre me incomodou: quase todo conteúdo de negócios termina na inspiração. Você vê, concorda, salva. Mas na hora de decidir sobre precificação, contratação ou uma estratégia, nada daquilo te ajuda.
O The Operator nasceu para quebrar esse loop: uma seleção semanal de ideias, estudos de caso e estratégias que eu também gostaria de receber. Conteúdo que não é só para salvar, mas para construir o repertório de quem toca uma empresa.
E, já que você chegou até aqui, responda este e-mail e me conte: qual é a decisão mais difícil que você precisa tomar na sua empresa hoje?
Eu leio todas as respostas.
Até o próximo domingo,
The Operator, por Ythalo S.


