BOM DIA
Anos 50, Nova York.
Um prédio comercial vivia recebendo reclamações sobre a demora dos elevadores.
A solução óbvia seria trocar os equipamentos. Só que isso custaria uma fortuna. Então colocaram espelhos ao lado das portas.
O elevador não ficou mais rápido. Mas as pessoas passaram a se olhar, se arrumar e se distrair enquanto esperavam.
A demora continuou a mesma. Porém, as reclamações sumiram.
Nesta edição:
Toda reclamação tem duas camadas. E a maioria das empresas só enxerga uma
A marca de roupa que fatura US$ 19 bilhões e se recusa a vender moda
A falta de tempo é justamente o que faz você continuar sem tempo
Cliente que representa muito do seu faturamento não é cliente. É um sócio que não divide o risco
INSIGHT DA SEMANA
Toda reclamação tem duas camadas. E a maioria das empresas só enxerga uma.
O que aquele prédio descobriu com o espelho você provavelmente vive até hoje.
Pense na última vez que você pediu um carro por aplicativo.
O app mostrava uma previsão de chegada de 8 minutos e você conseguia acompanhar o carrinho no mapa: virando a esquina, parando no sinal e entrando na sua rua.
Você podia até achar demorado, mas sabia que o motorista estava vindo.
Agora imagine a mesma corrida sem o mapa.
A tela mostra apenas “seu motorista está a caminho” e permanece assim. No terceiro minuto, você começa a desconfiar. No quinto, abre o aplicativo de novo. No sétimo, pensa em cancelar.
A espera é a mesma nos dois casos.
O carro não chega um segundo mais rápido só porque aparece na tela. Mas o sentimento é completamente diferente.
É o mesmo princípio dos elevadores: o fato não mudou. O que mudou foi a forma como ele foi vivido.
E é essa confusão que leva muita empresa a procurar a solução no lugar errado.
As duas camadas
Dentro de uma reclamação, quase sempre existem duas camadas misturadas.
A primeira é o fato: o pedido levou 15 dias, o orçamento ficou em R$ 800, a empresa demorou três horas para responder. É a parte objetiva da história.
A segunda é a percepção: a forma como aquele fato foi vivido. Esperar sem saber quando o pedido vai chegar, receber um orçamento sem entender o que está pagando ou mandar uma mensagem e ficar sem saber se alguém vai responder.
É essa mistura que torna uma reclamação difícil de interpretar: o cliente fala sobre o que aconteceu, mas a insatisfação pode estar tanto no fato quanto na percepção criada ao redor dele.
Veja como isso aparece em duas reclamações comuns:
1. “Por que está demorando tanto?”
Às vezes, o prazo é realmente longo. Mas, em muitos casos, o que mais incomoda é passar dias sem saber o que está acontecendo.
Dois clientes podem esperar os mesmos 15 dias. Um não recebe nenhuma notícia. O outro recebe algumas atualizações.
O prazo não mudou. Mas, para um, a empresa parece desorganizada. Para o outro, cumpriu o combinado.
2. “Ficou muito caro”
Pode ser que o preço esteja alto. Mas também pode ser que o cliente não tenha entendido o que justifica aquele número.
Existe uma diferença entre receber apenas “valor: R$ 800” e saber que o preço inclui material, instalação, ajustes e suporte.
Dar contexto não transforma qualquer preço em um bom preço. Mas um número isolado dificulta a percepção de valor.
E esse padrão vai muito além desses dois casos.
- Acontece no voo em que o passageiro descobre o atraso sozinho;
- No hospital em que vinte minutos parecem uma hora porque ninguém explica o próximo passo;
- Na obra em que o cliente só recebe notícia quando cobra;
- No suporte que faz a pessoa repetir a mesma informação várias vezes;
- E até na fila em que o tempo parece maior porque não há nada para distrair.
O problema muda.
Mas a diferença continua sendo a mesma: o que aconteceu de um lado e como aquilo foi percebido do outro.
Por que muita empresa só enxerga o fato
Existem dois motivos.
O primeiro é que quase tudo dentro de uma empresa aponta para o fato.
O prazo aparece no relatório. O preço está na proposta. O tempo de resposta pode ser medido.
Já a incerteza, a falta de clareza e a impressão de ter sido esquecido raramente aparecem em algum indicador.
Por isso, quando o problema parece ser a demora, a empresa tenta acelerar a operação. Quando parece ser o preço, pensa em desconto. Quando parece ser o atendimento, considera contratar mais gente ou abrir outro canal.
São respostas lógicas para a parte do problema que ela consegue enxergar.
O segundo motivo é que agir sobre o fato tem mais cara de solução.
Contratar, comprar equipamento, reduzir prazo, rever preço ou aumentar estoque são mudanças concretas, visíveis e fáceis de defender.
Já agir sobre a percepção muitas vezes começa com algo bem menor: um espelho no elevador, uma animação do carro indo até o seu endereço, uma explicação melhor, uma atualização, uma mudança no ambiente ou uma forma diferente de apresentar o mesmo produto.
E justamente por parecer pequena, subjetiva ou pouco sofisticada, ela costuma ser subestimada.
Só que uma mudança pequena na percepção pode alterar completamente a forma como o cliente julga a situação.
É isso que faz uma empresa parecer melhor
Pense nas empresas que você contratou nos últimos meses.
Quantas avisaram sobre um atraso antes de você perguntar? Quantas confirmaram que receberam sua solicitação? Quantas mostraram em que etapa o trabalho estava? Quantas explicaram claramente pelo que você estava pagando?
Provavelmente poucas.
Das que fizeram, você com certeza se lembra. E é por isso que algumas empresas parecem muito melhores sem necessariamente entregar algo tão diferente.
Elas não pensam apenas no que entregam, mas também em como aquilo é entregue: o ambiente, o processo, a forma de apresentar cada etapa, etc. Tudo o que influencia o que o cliente sente e faz.
É básico. Parece detalhe. Mas, enquanto a maioria enxergar apenas a parte mais óbvia do problema, perceber o que existe ao redor dele continuará sendo um diferencial.
Mas nem tudo se resolve na percepção
Melhorar a percepção não conserta um produto ruim, não torna um atraso absurdo aceitável nem transforma um preço injustificável em uma boa oferta.
Se o problema está no fato, o fato precisa ser corrigido.
A questão não é escolher entre melhorar o fato e melhorar a percepção. É parar de presumir que são a mesma coisa.
No fim, tudo se resume a mudar a pergunta
Em vez de perguntar apenas: “O que precisamos fazer para isso não acontecer de novo?”
Pergunte também: “O que, exatamente, tornou essa experiência tão ruim para o cliente?”
Às vezes, a resposta estará no produto, no prazo ou no processo. Em outras, estará na incerteza, na falta de clareza ou no silêncio ao redor deles.
O ponto é que você está lidando com a forma como as pessoas percebem uma situação. E isso raramente é tão claro quanto um número ruim em uma planilha.
Nem sempre será possível ter certeza do que está pesando mais antes de agir.
Mas, como a percepção costuma ser a camada mais rápida, barata e simples de mudar, faz sentido começar por ela.
Se uma pequena mudança já alterar a reação do cliente, talvez boa parte do problema seja resolvida antes mesmo de você precisar fazer mudanças maiores na operação.
ESTUDO DE CASO
A marca de roupa que fatura US$ 19 bilhões e se recusa a vender moda.
Todo mercado tem uma regra silenciosa. Ninguém escreveu, ninguém assinou, mas todo mundo segue.
Na moda, essa regra é a novidade. É o motor do setor. As marcas lançam uma coleção, fazem a anterior parecer ultrapassada e convencem o cliente de que ele precisa comprar de novo.
A Zara renova as prateleiras duas vezes por semana. A Shein lança milhares de peças novas por dia. É esse movimento constante que mantém o setor girando.
Mas ele também esconde um risco: toda coleção nova é uma aposta.
Se a empresa erra a tendência da temporada, o estoque encalha, o capital fica imobilizado e a única saída é recorrer a liquidações agressivas, sacrificando a margem para recuperar parte do dinheiro.
É uma roleta de tendências que o setor inteiro aceitou jogar.
A Uniqlo decidiu competir de outra forma.
A aposta no que não muda
Por trás da marca está a holding Fast Retailing, controlada por Tadashi Yanai, hoje o homem mais rico do Japão.
Quando abriu a primeira loja da Uniqlo, em Hiroshima, em 1984, Yanai já vendia roupas casuais básicas. Mas o setor era movido pela lógica das coleções sazonais.
Ele poderia ter seguido o mesmo caminho. Mas, em vez disso, dobrou a aposta no que já fazia. Camisetas lisas, casacos neutros, calças pretas. Peças que parecem iguais ano após ano.
A marca batizou o posicionamento de LifeWear: roupa para a vida. E Yanai resumiu a tese em uma frase: "Nós não fazemos roupas descartáveis."
Só que essa escolha criava um problema comercial óbvio: se o produto era uma camiseta lisa ou uma calça preta básica, por que o cliente escolheria a Uniqlo, e não qualquer confecção de bairro?
A resposta: tecnologia dentro do básico
Em vez de gastar energia redesenhando o formato das peças a cada três meses, a Uniqlo passou a melhorar a engenharia do tecido.
A empresa fechou uma parceria de longo prazo com a Toray Industries, gigante japonesa de fibras técnicas, para desenvolver novos materiais e aprimorar seus produtos.
Dessa aliança nasceram alguns dos produtos que sustentam a marca até hoje, refinados ano após ano:
→ HEATTECH: tecido desenvolvido para absorver a umidade liberada pelo corpo e transformá-la em calor.
→ AIRism: tecido leve que absorve a umidade e seca rapidamente.
→ Ultra Light Down: jaquetas térmicas de pluma que cabem dobradas no bolso.
A peça parece a mesma da confecção de bairro. O tecido, não.
O jogo operacional por trás
É aqui que a escolha da Uniqlo revela sua força.
O básico não é apenas um posicionamento de marca. É também a base de uma operação muito mais previsível.
Como grande parte do catálogo continua relevante de um ano para o outro, a empresa consegue comprar matéria-prima com antecedência, planejar melhor as fábricas e produzir volumes enormes de um mesmo modelo.
A Uniqlo fabrica mais de 600 milhões de peças por ano, com lotes que podem chegar a 1 milhão de unidades por item. Essa escala reduz custos, enquanto a estabilidade do catálogo diminui o risco de estoque.
Quanto menos o produto depende de uma tendência passageira, menor a chance de terminar a temporada com peças encalhadas. Enquanto boa parte do setor precisa recorrer a descontos para se livrar da coleção anterior, a Uniqlo pode continuar vendendo os mesmos produtos.
Na prática, isso significa menos capital imobilizado, menos liquidações desesperadas e mais margem protegida.
O resultado: em 2025, a Fast Retailing registrou receita recorde de cerca de US$ 22,2 bilhões, e segue como a 3ª maior varejista de moda do mundo, atrás apenas da Inditex (dona da Zara) e da H&M. Justamente as gigantes que jogam o jogo oposto. E embora a holding tenha outras marcas, a Uniqlo responde por cerca de 86% dessa receita, faturando cerca de US$ 19 bilhões.
A escolha da Uniqlo não significa que a regra antiga tenha parado de funcionar.
A Zara continua na liderança, a Shein cresce em ritmo impressionante e a própria Uniqlo enfrenta concorrência dura de marcas locais de baixo custo na Ásia.
O fast fashion, baseado na renovação constante das coleções, ainda é um jogo lucrativo para quem sabe jogá-lo.
O que a Uniqlo mostrou é que essa não era a única forma possível de construir uma gigante do setor.
E esse talvez seja o ponto mais importante do caso.
Muita gente começa um negócio copiando a forma como o mercado já opera: repete o mesmo modelo, disputa pelos mesmos critérios e assume os mesmos riscos, sem parar para perguntar se aquela era realmente a melhor forma de competir.
O problema não é fazer o que todo mundo faz. É fazer apenas porque todo mundo faz.
LIVRO
A falta de tempo é justamente o que faz você continuar sem tempo.
Essa é uma das ideias centrais de Scarcity (Escassez), de Sendhil Mullainathan e Eldar Shafir.
Para os autores, escassez é a sensação de que um recurso importante não é suficiente. Pode ser dinheiro, tempo, atenção ou qualquer outra coisa de que você dependa.
O problema é que essa falta não afeta apenas o que você consegue fazer. Ela também muda a forma como você pensa. Quando uma urgência ocupa a cabeça, o cérebro concentra quase toda a atenção nela e deixa o restante fora do campo de visão.
Os autores chamam isso de “visão de túnel”: você pode até ficar mais eficiente para resolver o problema imediato, mas perde capacidade de enxergar o que evitaria o próximo.
É por isso que quem está sem tempo adia justamente o que poderia devolver tempo: planejar, delegar, organizar processos e corrigir a origem dos incêndios. Não porque não saiba que isso importa, mas porque a própria correria reduz o espaço mental necessário para sair dela.
Por que importa: muitos donos de empresa acreditam que vão organizar a operação quando “sobrar tempo”. O livro mostra justamente o contrário. Se você esperar sobrar tempo, provavelmente nunca vai organizar a operação. A escassez não só cria problemas. Ela também reduz a capacidade de resolvê-los. É por isso que as decisões mais importantes precisam ser protegidas da urgência. Link para o livro.
REFLEXÃO
Cliente que representa muito do seu faturamento não é cliente. É um sócio que não divide o risco.
Isso aparece nas pequenas decisões: você muda um prazo, troca uma prioridade, reorganiza a agenda. Tudo porque contrariá-lo parece arriscado demais. O time inteiro sabe disso. E ele também.
E é aí que começa o problema. A empresa passa a operar com medo de perdê-lo. Deixa de decidir o que é melhor para o negócio e começa a decidir apenas o que evita atrito.
Faça a conta: se esse cliente sair hoje, a empresa aguenta quantos meses? A resposta deixa claro quem realmente tem o poder na relação.
Isso não significa que cliente grande seja um problema. O problema é depender demais de um ou de poucos.
E a saída não é reduzir a atenção dada a esses clientes. É investir tempo e energia para conquistar os próximos. Cliente grande deveria financiar a expansão, não capturar a operação inteira.
Receita concentrada parece estabilidade. Até o dia em que vira dependência.
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SOBRE NÓS
Prazer, eu sou o Ythalo, fundador e editor do The Operator.
Há mais de 10 anos construo empresas de tecnologia. Sou sócio da MAR Ventures, venture builder por trás de empresas como a Remessa Online, vendida ao EBANX por mais de R$ 1 bilhão. E também sou cofundador e CEO da Vobi, investida pela Y Combinator, a mesma aceleradora por trás de Airbnb, Stripe e OpenAI, criadora do ChatGPT.
Ao longo dessa jornada, uma coisa sempre me incomodou: quase todo conteúdo de negócios termina na inspiração. Você vê, concorda, salva. Mas na hora de decidir sobre precificação, contratação ou uma estratégia, nada daquilo te ajuda.
O The Operator nasceu para quebrar esse loop: uma seleção semanal de ideias, estudos de caso e estratégias que eu também gostaria de receber. Conteúdo que não é só para salvar, mas para construir o repertório de quem toca uma empresa.
E, já que você chegou até aqui, responda este e-mail e me conte: qual é a decisão mais difícil que você precisa tomar na sua empresa hoje?
Eu leio todas as respostas.
Até o próximo domingo,
The Operator, por Ythalo S.




